Solar de Targini
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O Solar
Apesar de Francisco Bento Maria Targini, desde seus 20 anos de idade, trabalhar para a Coroa, sempre em altos cargos, com ótimo ordenado, o único bem que possuiu foi uma casa, no Rio de Janeiro, na Rua de Matacavalos, hoje do Riachuelo, esquina com Rua dos Inválidos.
Há muitos anos sonhava em construir sua casa própria,
Consta que a casa não foi construída nos terrenos que havia comprado em 1809, assim que foi nomeado Tesoureiro Mor do Erário, mas adquirida muito mais tarde do oficial das ordenanças do Paço, Antônio da Cunha, e só a habitou em em 1820, já na idade madura, após reforma, graças aos bons proventos que recebia e às economias amealhadas em de uma vida inteira.
Seus detratores, que não lhe davam tréguas e, ao contrário, investiam cada vez com mais difamações e calúnias, tornavam cada movimento de Targini objeto de seus ataques e espalharam críticas mordazes à construção, principalmente com o argumento de que o fausto do palacete não condizia com os parcos ganhos do Tesoureiro Mor e o dinheiro usado deveria ter sido roubado do Tesouro. Contudo, ninguém se admirou ou criticou quando o ordenança a construiu, e ele ocupava um cargo cujos vencimentos eram bem menores que os do Tesoureiro Mor. Targini a reformou e a transformou em uma bela e confortável residência. Pelas fotos atuais, percebe-se que o solar foi construído em um terreno pequeno, sem jardins, sólido e de bom gosto, nada muito diferente de outras moradias que ficam na mesma rua. Também, quanto ao estilo, não diferia de sua moradia em Lisboa, antes de vir ao Brasil, construída na Rua Nova da Princesa, pelo plano da grande Reforma Pombalina.
Rua de Matacavalos, hoje Rua Riachuelo. Vizinhos de Francisco Bento Maria Targini.
Os vizinhos, também ligados à Coroa, não foram alvo de questionamento ou acusados de usarem dinheiro público, quando construíram suas residências, do mesmo porte. Não havia interesse político em difamá-los. Em 1938, o prédio foi tombado pelo Patrimônio Histórico, que o deixou ficar em ruínas. Hoje não resta nem o telhado, nem uma só parede, e se acha transformado em estacionamento. A fachada original era no estilo colonial da época, semelhante ao Paço Imperial e já havia para ele diversos projetos de restauração concluídos, hoje inúteis.
RUÍNAS
LATERAL DO SOBRADO, NA RUA DOS INVÁLIDOS, HOJE QUASE TOTALMENTE DESTRUIDA


Uma inscrição acha-se sobre a primeira porta de entrada, um pouco menor do que a principal, na Rua Riachuelo. O lema é parte do trecho da Bíblia, “Deuteromonio 6”, que trata dos mandamentos de Deus.
“Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, (EX TOTO CORDE) e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças”.
“A CASA SENHORIAL EM LISBOA E NO RIO DE JANEIRO”
Edição conjunta do Instituto de História da Arte (IHA) – Faculdade de Ciências Sociais, de Humanas da Universidade Nova de Lisboa ISBN e Escola de Belas Artes (EBA) – Universidade Federal do Rio de Janeiro ISBN), no capítulo que trata da “Padrões distributivos das casas senhoriais no Rio de Janeiro do primeiro quartel do século XIX”.
Neste belo livro encontra-se, entre outros estudos feitos pelo Arquiteto José Simões de Belmont Pessôa, o que se refere ao solar construído por Francisco Bento Maria Targini, na antiga rua de Matacavalos, hoje, do Riachuelo.
Embora quanto à parte histórica haja algumas imprecisões a respeito da vida de Targini, o artigo descreve a residência da melhor maneira que foi possível, em face do estado de destruição em que se encontra o prédio.
O trabalho é ilustrado pela fotografia de Eric Hess, 1941, obtida no Arquivo Central IPHAN, e com dois esboços de planta do andar superior e dos dois sótãos.
Assim o Professor José Simões de Belmont Pessôa descreve e comenta o que pode observar sobre a nobre construção em ruínas:
“O alçado voltado para a Rua de Matacavalos tem no andar nobre sete janelas rasgadas separadas em três tramos por pilastras. As três centrais em arco abatido com um único balcão corrido, de linha ondulante, e as laterais em verga reta com balcões isolados. No alçado voltado para a rua dos Inválidos, temos nove vãos todos em arco abatido com balcões isolados e divididos também em três tramos, neste caso, iguais. Nos sótãos centralizados, três janelas de peitoril em arco abatido. A entrada se dava pelos vãos do tramo central da fachada da Rua de Matacavalos. Três portas, uma mais larga central para entrada de carros e cadeiras de arruar, apresentando uma incomum cartela na chave do seu arco abatido, e ladeada de duas mais estreitas. ……. um “brasão” na fachada da casa, caso único no Rio de Janeiro da corte de Dom João VI. As outras portas voltadas à Rua de Matacavalos serviriam seguramente para as lojas, uma única larga à esquerda e duas mais estreitas à direita. Estas portas apresentam molduras simples, sem o detalhe do alargamento na parte superior das três portas centrais. Há claramente uma hierarquia na composição deste alçado, distinguindo no térreo, o tramo central como parte da residência. O edifício encontra-se hoje arruinado, mas um levantamento realizado no seu interior na década de 1980, permite identificar algumas características da sua disposição interna. Na ocasião, o imóvel encontrava-se completamente subdividido mas ainda era possível identificar, pelos grandes forros de madeira entabeirada, os salões primitivos. No sobrado, que corresponderia ao andar nobre tínhamos a clássica divisão de um salão central maior correspondendo aos três vãos do tramo central, ladeado por dois salões menores laterais, correspondendo a dois vãos cada. No sótão, os alçados voltados para as ruas de Matacavalos e dos Inválidos correspondem cada um a um salão com forro em gamela. A escada original não mais existia, mas pelos espaços remanescentes, tudo leva a crer que seria uma escada entalada como as da casa do Bispo no Rio Comprido e do seu irmão em Jurujuba.”
Como nos esclarece o Professor Arquiteto José Simões de Belmont Pessôa, já em 1809, assim que foi nomeado Tesoureiro Mor do Erário Real, comprou terrenos à rua de Matacavalos, onde já existiam várias casas térreas, conforme consta das inscrições dos livros da décima urbana. Edificou a sua residência, somente entre 1818 e 1819, pois a partir de 1820 a décima urbana registra o nome do Visconde de São Lourenço como proprietário de uma casa com loja, sobrado e sótão na esquina da rua de Matacavalos com rua dos Inválidos.