Caricatura dos jornalistas Luiz Gama, Américo de Campos e Pedro Taques Alvim, sendo saudados pelo "DIABO COXO” que agradece a recepção que os jornalistas de São Paulo lhe deream

Américo Brasílio de Campos

Américo Brasílio de Campos é um personagem interessantíssimo, da História de São Paulo e do Brasil.

Seu pai, o velho Bernardino de Campos, cursou a 3ª turma da já famosa Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Matriculado em 1830, colou grau, em 1834.

Recém-formado, casou-se, em São Paulo, com Felisbina Rosa Gonçalves, em 12 de agosto de 1834 e logo seguiram para Bragança Paulista, aonde fora nomeado como Juiz de Direito. Ali nasceu Américo de Campos, em 12 de agosto de 1838.

Felisbina Gonzales (mãe) e Bernardino de Campos (pai)
Felisbina Gonzales (mãe) e Bernardino de Campos (pai)

 

Em Bragança, também nasceram os irmãos de Américo, Amélia, Delfica e Carlos, que ali faleceu criança.

Logo, o juiz foi designado, para exercer a sua função, em Pouso Alegre, MG.

Foi na cidade mineira, que lhe nasceu mais um filho, em 1941. Foi batizado como Bernardino José de Campos Jr.

Com a família aumentada, o pai, Bernardino, por volta de 1843, se desligou da função de juiz e mudou-se para a Vila de São Carlos, atual Campinas, onde instalou sua banca de advocacia.

2 – EM CAMPINAS

Embora, há muito pouco tempo, fosse apenas uma pequena povoação, pertencente à vila de Jundiaí, o local, em 1774, fora elevado à condição de freguesia.

Desenho H. Lewis de 1863, mostrando a antiga e primeira cadeia e Câmara Municipal de Campinas;
Desenho H. Lewis de 1863, mostrando a antiga e primeira cadeia e Câmara Municipal de Campinas;

Foi ali, naquela pequenina cidade, que Bernardino, em 1843, instalou, cheio de esperançosas perspectivas, sua banca de advogado e criou seus filhos.

Durante sua infância e mocidade, Américo e Bernardino, em uma vida de pioneiros, fizeram, em Campinas, grandes amigos, com quem caminharam juntos, pela vida inteira, seguindo a mesma trajetória de luta, para tornar o Brasil um país melhor e mais justo, para seu povo.

Antiga Matriz, inaugurada a 25 de julho de 1781, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição das Campinas.
Antiga Matriz, inaugurada a 25 de julho de 1781, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição das Campinas.

Os irmãos Américo e Bernardino de Campos, Manuel Ferraz de Campos Sales, Francisco Glicério de Cerqueira Leite e seu irmão Jorge Ludgero de Cerqueira Miranda, Bento Quirino dos Santos e seu irmão Francisco Quirino dos Santos, José Paulino Nogueira, Carlos Gomes, cresceram juntos, pelas ruas poeirentas, daquela Campinas de outrora.

Pulando Carniça – Cândido Portinari
Pulando Carniça – Cândido Portinari

Brincavam com seus irmãos, e mais as crianças dos arredores, cercados pelo ar perfumado da exuberante vegetação, sob o céu azul, com seus bandos de andorinhas e radiante sol.

Américo, Bernardino e suas irmãs eram acompanhados em seus estudos, pelo pai. O que mais gostavam era, após completadas as lições, os quatro sentarem-se no chão, aos seus pés, com ele na cadeira de vime, para ouvirem suas histórias de vida, principalmente quando se tratava de sua passagem pela Faculdade de Direito de São Paulo, como aluno da terceira turma, que ali se matriculara.

Contava-lhes como se lembrava do alvoroço que fora quando, em uma das salas da Faculdade, a mulher de seu colega Manoel Inácio Álvares de Azevedo, ao ir encontrar o marido na saída das aulas, sentira repentinamente as dores do parto e dera, ali mesmo, à luz, o futuro poeta, Álvares de Azevedo.

 

Manuel Antônio Álvares de Azevedo

ALVARES DE AZEVEDO

 

Os meninos achavam graça e ouviam com prazer o pai ler as poesias do festejado gênio, tão popular, que de tão repetidas chegavam a decorar.

SE EU MORRESSE AMANHÃ

“Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe, de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã…
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!”

Mas, a história que mais os impressionava, era a do professor do curso anexo da Faculdade, Líbero Badaró, que preparava os alunos, para os exames necessários à matrícula.

Libero Badaró

Libero Badaró. Desenho de Tancredo do Amaral

Contratado para ensinar geometria, no curso preparatório para ingresso na Academia, o seu modo jovial logo conquistou os alunos, que após as aulas a ele se reuniam, no Pátio, no Largo ou à noite, nas Repúblicas e às vezes na casa do Professor, para discutirem o que mais gostavam: O momento político pelo qual passava a monarquia.

O Povo exigia que o Imperador, D. Pedro I, respeitasse a Constituição, que ele mesmo outorgara. Queriam um monarca constitucional.

Badaró, que na Itália já se indispusera com o governo, por declarar suas ideias liberais e combater o absolutismo, continuou no Brasil a defender suas posições políticas.

Os alunos o ouviam hipnotizados, quando expunha, de modo tranquilo, com um leve sotaque que denunciava sua origem italiana, as teorias sociológicas e políticas, que fundamentaram o nascimento das Repúblicas Americana e Francesa.

O velho Bernardino aproveitava, enquanto contava suas histórias, para passar aos filhos os ensinamentos daquele mestre inesquecível, pois, para ele, entre todos com quem estudara, foi o que mais influiu em sua formação,

Foi lendo e conhecendo as lições de Líbero Badaró, que Américo, Bernardino , os futuros acadêmicos, conheceram os princípios expostos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que levaram os povos a ter consciência de seus direitos sociais e das liberdades individuais.

Princípios esses, que nortearam todos os atos de suas vidas e, que se perpetuaram por todas gerações dos que por ali passaram.

Bernardino não podia evitar, que sua voz ficasse embargada e seus olhos marejados de lágrimas, ao contar a seus filhos, a grande desgraça, que, já frequentando o primeiro ano do curso, se abateu sobre São Paulo e, principalmente, sobre a Faculdade.

Assassinaram Líbero Badaró!

Do original de Hercules Florence

Para contar tão triste notícia, reproduzo aqui um trecho do e-book “Libero Badaró” de
Augusto Goeta.

http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/badaro.html

“e reproduzimos fielmente as palavras da única testemunha que deixou escritas as suas recordações, o dr. Joaquim Antônio Pinto Junior, então jovem estudante, que esteve naquela noite perto do ferido: “… Um numeroso concurso de estudantes de direito corria a chamar nosso prezado pai, o cirurgião-mor Joaquim Antônio Pinto, para que fosse prestar os socorros da ciência ao seu infeliz colega; nós o acompanhávamos, e ao chegar à pequena casa térrea em que habitava a vítima, na Rua de S. José, dificilmente pudemos atravessar a onda de povo que literalmente enchia toda a rua.
“Badaró estava deitado sobre um leito, alagado em sangue, pálido, com essa palidez da morte que lhe estava próxima, a larga fronte banhada de um suor frio, o pulso linear, mas o rosto sereno e a palavra sonora.
“Aos amigos que o cercavam, aos colegas que o procuravam iludir acerca da gravidade do ferimento, ele respondia tranquilo: ‘Não me iludem, eu sei que vou morrer. Não importa. Morre um liberal, mas não morre a liberdade.”

As sementes dos ensinamentos de Líbero Badaró caíram em solo fecundo.

De geração em geração, os alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco fizeram dos princípios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade os pilares de sua formação.

Mostrava Bernardino a seus filhos, como os acadêmicos de Direito cultivavam o Civismo e a Liberdade e como execravam o sistema, que acolhia uma legislação tolerante com a exploração do braço escravo.

Ensinava-os a nunca aceitar a escravidão e a lutar pela Abolição do povo vergonhosamente escravizado.

E era isso, que Bernardino queria passar para seus filhos, ao contar sua vida, dos tempos da Faculdade.

A influência do pai advogado, antigo aluno das Arcadas, foi grande nas vidas de Américo e Bernardino.

3 – HOMENAGEM A LÍBERO BADARÓ

Recém proclamada a República, por ocasião dos 59 anos da morte de Líbero Badaró, Américo não se esqueceu da história, sobre o assassinato, que seu pai lhes contara.

Era uma história, que o emocionava, pois lhe trazia à memória o dia mais triste de sua vida, quando um pistoleiro, a mando de um desafeto, também assassinara seu pai.

Mais tarde, Américo de Campos, já jornalista, fundador e dono, com José Maria Lisboa, do jornal “Diário Popular”, publicaram, na edição de 21 de novembro de 1889, um editorial em homenagem ao grande defensor da Liberdade dos Povos.

“Há 59 anos, nesta capital, deu-se o assassinato político de João Baptista Badaró, jovem patriota italiano, que aqui, espírito alevantado e de notável ilustração literária e científica e ardente apóstolo das doutrinas democráticas, que naquele tempo já avassalavam o mundo, abriu campanha franca e leal contra o despotismo e contra o regime violento e dominador, que D. Pedro I instituíra e procurava consolidar no Brasil.

Filho da antiga e altiva república de Gênova, pertencente a uma família de posição saliente pelo patriotismo e pelo amor e cultura científica, dispondo de todos os recursos de esmerada educação e já formado em medicina pelas universidades de Pávia e Turim, o moço patriota veio para a América trazendo aqueles sagrados pecúlios, preparado para ser, como o foi, um tipo exemplar de honestidade, de cultura cerebral e de civismo.
O moço Badaró aportou ao Rio de Janeiro no ano de 1826, ocupando-se ali de sérios e notáveis estudos de botânica e zoologia. Pouco tempo depois veio para São Paulo, firmando residência nesta capital, e aqui ligou-se à melhor sociedade e particularmente a quantos mantinham a luta e a propaganda pelas ideias de um regime democrático.
De logo o moço ilustre e ardente patriota salientou-se entre os mais distintos trabalhadores, constituindo-se o periódico que fundara e de que era redator, “O Observador”, centro e bandeira da mais e mais alevantada guerra contra a opressão monárquica, contra os abusos do clero, contra as imoralidades da administração.
O valente jornalista mui naturalmente acumulou, em ódios e perseguições, em torno do seu nome e de sua pessoa, quanto distribuía em ataques e intemerata flagelação aos violentos e despóticos senhores e exploradores do povo e do país.
A prepotência dos déspotas daquele tempo e de seus asseclas, o caráter intolerante de Pedro I, a altivez indomável de Badaró são os claros fatores que explicam a “execução” traiçoeira do mártir da liberdade, morto, por um tiro, à noite e sem testemunhas, em uma das ruas desta capital.
Foi seu cadáver sepultado no Carmo. Ali jazeram seus restos mortais, e ficaria desconhecida a sua sepultura a não ser a dedicação com que há meses empenhou-se um grupo de cidadãos italianos, no propósito de fazer a transladação dos restos sagrados do mártir para o cemitério geral, levantando-lhe ali uma lápide comemorativa.
A causa porque morreu Badaró é a causa de todos os livres, mas é particularmente a nossa causa.
Isso basta para que saibamos honrar a glorificação de sua memória, honrando ao mesmo tempo a nobreza patriótica com que os filhos da Itália sabem atestar, na pátria e no estrangeiro, seu proverbial ardimento democrático.
Paulistas, brasileiros, apenas há dias instalados à sombra do regime republicano, façamos do modesto túmulo do imortalizado mártir o altar sacrossanto onde prestemos, nós, os italianos e todos os estrangeiros de S. Paulo, o leal juramento de confraternização de todos os povos e de todas as raças sob o largo e glorioso pavilhão da República.”

4 – AULAS DE MÚSICA

Antônio Carlos Gomes

Antônio Carlos Gomes

 

A paixão de Américo era a música e a matemática. Estudava, com gosto e afinco, as duas matérias.

O pai, esperando vê-lo seu herdeiro, como advogado, exigia. que tivesse aulas particulares de latim e filosofia. Para agradá-lo, contratou, para lhe dar aulas de música, o melhor professor da cidade, o Mestre de Capela, Maestro Manoel José Gomes, pai de Carlos Gomes, seu amigo de folguedos e companheiro, no coro da Igreja Matriz.

Maestro Manoel José Gomes

Maestro Manoel José Gomes

 

Os meninos de Campinas cresceram. Uns, ali permaneceram, outros foram viver, em outras cidades.

Bernardino de Campos, Jorge Ludgero de Cerqueira Miranda, Américo de Campos, Manuel Ferraz de Campos Sales, Francisco Glicério de Cerqueira Leite, Bento Quirino dos Santos e Francisco Quirino dos Santos, José Paulino Nogueira, Carlos Gomes

Mas nunca deixaram de se ver, de se comunicar. Formaram uma brigada, de homens prontos para engrandecer seu país e lutar pelos ideais republicanos, da Igualdade, Liberdade e Fraternidade.

5 – NAS ARCADAS

Completado seus anos de estudo primário e secundário, chegou o dia de Américo partir para São Paulo e frequentar o curso preparatório, para matricular-se na Faculdade de Direito, onde seu pai se formara.

LARGO DE SÃO FRANCISCO, SP
FACULDADE DO LARGO DE SÃO FRANCISCO, SP

 

Estando pronto para prestar os exames, que o habilitaria para iniciar os estudos, seu pai lhe pediu, que adiasse a matrícula e voltasse para Campinas, tendo em vista que, naquele ano, o escritório recebera poucas causas, o que lhe dificultava mandar a mesada, para cobrir as despesas do filho.

Américo preferiu ficar e, muito erudito, sabendo bem o francês e o latim, começou a dar aulas, para ganhar algum dinheiro. Dirigiu-se à redação do jornal “O Correio, Paulistano”, fundado por um dos decanos dos jornalistas paulistas, José Roberto de Azevedo Marques, futuro sogro de seu amigo de infância Francisco Quirino dos Santos, e lhe pediu emprego.

 

Azevedo Marques

José Roberto de Azevedo Marques

 

Azevedo Marques conhecia bem as famílias de Campinas, onde tinha muitos leitores e amigos. Mais tarde chegou a morar e fundar com seu genro campineiro, Francisco Quirino, o jornal “A Gazeta de Campinas”. Assim, Américo conseguiu meios para se sustentar, enquanto estudava.

Ao transpor, pela primeira vez o portal da Academia, Américo sentiu, que ali era seu mundo.

Túmulo de Júlio Frank – Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, SP
Túmulo de Júlio Frank – Faculdade de
Direito do Largo de São Francisco, SP

 

Naquele pátio, entre as Arcadas, ou à noite, sob a fraca luz do lampião a óleo do Largo de São Francisco, ou nas barulhentas repúblicas, os estudantes debatiam suas teorias, citavam seus autores favoritos e passavam aos calouros as histórias e tradições de sua comunidade.

São Paulo – Conversa à luz do lampião
Conversa à luz do lampião

Com grande afinidade com os pensamentos de Júlio Frank e Líbero Badaró, tanto Américo, como seu irmão Bernardino, os tomaram como exemplos para suas vidas. Américo, como estudante, era boêmio, gostava de noitadas e conversas sobre política, abolição, filosofia. Não se incomodava muito com seus trajes e, friorento, trazia sempre um xale em seus ombros e uma fruta no bolso, para mordiscar a qualquer hora.Não se aprofundou nos estudos do Direito, pois seu tempo era mais dedicado a escrever artigos para os folhetins, que se publicavam na faculdade. Suas notas eram suficientes para não perder o ano.

Pátio do Colégio cerca de 1860. À direita parte da Casa da Ópera. Ao centro a igreja do Colégio. Foto de Militão Augusto de Azevedo
Pátio do Colégio cerca de 1860. À direita parte da Casa da Ópera.
Ao centro a igreja do Colégio. Foto de Militão Augusto de Azevedo

Américo divertia-se escrevendo peças de teatro, como a comédia, em um ato, “O Concílio das Comadres”, encenada na já decadente “Casa da Ópera”, ou “Teatrinho”, como carinhosamente era chamada pelo povo paulista.

A peça foi aplaudida pelo público, na sua maioria composto pelos colegas do Largo de São Francisco.

A “Casa da Opera”, o primeiro teatro de São Paulo, que poucos anos depois foi demolido, (1870), ficava no Pátio do Colégio ao lado da igreja dos jesuítas, com fundo para a antiga Rua da Fundição, atual Rua Floriano Peixoto, conforme nos informa Edison Loureiro, em seu site “São Paulo Passado”.

Esse interesse, pelo teatro, o aproximou do poeta Paulo Emilio de Salles Chagas, mais conhecido por Paulo Eiró, um dos estudantes ali matriculados, com quem desenvolveu sólida amizade.

Criticavam suas poesias e comentavam suas peças. Discutiam filosofia e política. E encontraram grande afinidade de ideias, ao defenderem o fim da escravidão e o regime republicano de governo.

Nessa época, já frequentava também a Faculdade, seu irmão, Bernardino de Campos.

A amizade com os dois irmãos foi providencial para o calouro Paulo Eiró. Tímido e frágil, era o alvo preferido dos veteranos, para lhe aplicarem o famigerado trote. Muitas vezes, a intervenção dos irmãos Campos foi salvadora.

Paulo Eiró
Paulo Emilio de Salles Chagas

Francisco Rangel Pestana.

Pertencia a essa mesma turma, aquele que seria uma das maiores inteligências postas a serviço da formação política e educacional dos primeiros anos da nossa República, Francisco Rangel Pestana (1839/ 1903). Nascido na Vila de Iguaçu, RJ, hoje Nova Iguaçu, logo se integrou com o grupo de Campinas, principalmente com Américo, amizade que os uniu pela vida inteira, tanto nas atividades políticas, como na profissão de jornalistas.

Francisco Rangel Pestana
Francisco Rangel Pestana

 

Américo e Rangel Pestana deram início à suas carreiras jornalísticas, colaborando com artigos para os jornais acadêmicos, “O Lírio” e o jornal político “A Razão”, fundados por Francisco Quirino dos Santos, e o irmão João Quirino do Nascimento.

Rangel Pestana merece ser mais homenageado e ter sua vida mais conhecida, pois foi um dos mais combativos propagandistas da República e da Abolição.

Foi, também, um dos principais elaboradores do programa do PRP, que tanto progresso trouxe a São Paulo. Não se pode esquecer, que foi Rangel Pestana o principal idealizador de uma ampla reforma do ensino, pela qual teve sempre que lutar, para ser entendida e implantada, desde o tempo da monarquia.

Somente após a Proclamação da República, encontrou apoio para execução de seus projetos.

Com o advento do sistema Republicano, foi iniciada, no Estado de São Paulo, a implantação da Reforma planejada, com a aprovação de Prudente de Morais, e prosseguida por seus sucessores, Jorge Tibiriçá Piratininga, Américo Brasiliense e Cerqueira César.

Contudo, como acontece até nos dias de hoje, a oposição à implantação de um sistema educacional moderno era muito forte, havendo severo boicote aos projetos republicanos, para o ensino.
Somente no governo de Bernardino de Campos, que reuniu, à sua volta, um secretariado composto dos mais preparados indivíduos, nas diversas áreas do conhecimento, foi possível vencer a perversa oposição, que impedia a realização da principal meta do projeto, que era o de levar-se o conhecimento a toda população, sem qualquer discriminação entre as classes sociais.

Meta essa adotada, em respeito a um dos sagrados princípios republicanos, o Princípio da Igualdade. O sucesso do Partido Republicano Paulista, que assegurou seu Poder durante tantos anos, foi justamente a seriedade com que seus membros deram à implantação das obras contidas em seu projeto de governo, dando, cada novo ocupante do cargo de Governador, continuidade às obras iniciadas pelo governante, que o antecedeu.

Rangel e Américo foram fundadores, sócios proprietários e redatores da “Província de São Paulo”, jornal propagandista da República, atual “O Estado de São Paulo”, bem como redatores do “O Correio Paulistano” que, no tempo em que lá atuavam, além de jornal ser Republicano, se dedicava a combater, ferrenhamente, a escravidão, vergonha Nacional.

Nesta época, Américo já escrevia muito bem e publicava artigos nos jornais acadêmicos. Embora tenha se formado em Direito, pela Faculdade do Largo de São Francisco, sua vida foi dedicada ao jornalismo político, voltado principalmente a propagar as ideias republicanas e abolicionistas.

6 – CARLOS GOMES, AMÉRICO DE CAMPOS E A MÚSICA

As lembranças da bandeira da Abolição, levantada pelos estudantes, à qual aderira totalmente, levaria Carlos Gomes, em sua maturidade, a compor uma de suas mais conhecidas Óperas, “Lo Schiavo”. “Lo Schiavo”, com libreto escrito por Alphonse de Taunay, foi apresentada, com muito sucesso, no Rio de Janeiro, em 1889, poucos meses antes da Proclamação da República, um ano após a Abolição.

Carlos Gomes, veio para São Paulo, completar seus estudos e, como bom campineiro, juntava-se com os conterrâneos em suas repúblicas e participava da vida dos estudantes Inspirado pela convivência, compôs o “HINO ACADÊMICO”, que até hoje, sempre é cantado, com orgulho e emoção, pelos estudantes das Arcadas.

Naquele tempo era muito difícil ouvir boas músicas, mas Américo, dono de um ouvido privilegiado, lia as partituras como se fossem romances, marcando o ritmo com as mãos e cantarolando.

Não foi à toa, que, assim que foi cumprida sua missão jornalística de propagar os princípios republicanos, que levariam à proclamação do dia XV de novembro de 1889, aceitou o cargo de cônsul do Brasil, em Nápoles, onde sabia, que poderia conviver mais com sua amada música.

7 – AMÉRICO, PROMOTOR EM ITU

Américo formou-se em 1860 e foi para Itu, como Promotor.

Ali teve a oportunidade de poder estudar música, com seu amigo de infância Elias Álvares Lobo de Albertim, com quem fazia música, junto com Carlos Gomes.

Foi em Itu, que Américo comprou seu primeiro piano.

O instrumento musical era fabricado naquela cidade, pelo habilidoso artesão Antônio Venerando Teixeira. Deve ter sido um dos primeiros pianos fabricados, totalmente, no Brasil, com madeira aqui colhida.

Piano fabricado em Itu, pelo artesão Antônio Venerando Teixeira. Museu Republicano de Itu, SP

Ao partir para Nápoles, como cônsul brasileiro, Américo deixou o piano, com seu irmão Bernardino, para gáudio de seu sobrinho Carlos, que, como ele, vivia para a música.

Naquele piano, Carlos de Campos, que viria a ser Governador de São Paulo, compôs muitas músicas e até uma ópera. “A Bela Adormecida”.

A carreira de Américo em Itu durou apenas dois anos, interrompida por uma tragédia que o abateu profundamente: A morte, inesperada de seu pai.

O pai, Bernardino de Campos, ao tratar do inventário de sua filha, que ficara viúva, teve um desentendimento com um parente do morto.

Este, inconformado por perder a causa, tratou o pistoleiro Bento José dos Santos, para matar o brilhante advogado, que defendia os direitos da filha e dos netos.

Ao sair do teatro São Carlos, em uma noite festiva, quando a população comemorava a festa dos Santos Reis, no dia seis de janeiro de 1864, foi atingido por um tiro traiçoeiro e fatal. Tinha 58 anos.

Bernardino tinha apenas 23 anos e Américo, 26.

Inconformados, os filhos terminaram os processos do pai e fecharam o escritório, em Campinas.

Bernardino foi, com mulher e filho, para a vizinha cidade de Amparo, como promotor.

Américo se exonerou do cargo de promotor público e, naquele mesmo ano, foi para São Paulo, para se encontrar com Luiz Gama e Américo Brasiliense e, com eles, traçar a linha de ação, para a propaganda abolicionista e republicana, nos moldes do que já se fazia no Rio de Janeiro.

8 – O JORNALISTA AMÉRICO BRASÍLIO DE CAMPOS

“CORREIO PAULISTANO”

O início profissional de Américo de Campos, no jornalismo, foi por volta de 1830, no tradicional jornal CORREIO PAULISTANO, de propriedade de Joaquim Roberto de Azevedo Marques, quando ainda era estudante de Direito.

Assim que se formou e, com a saída do famoso jornalista Taques Alvim do jornal, onde era o redator, Américo de Campos o substituiu.

Com sua nomeação para redator, imprimiu-se ao jornal uma linha republicana e abolicionista, com o aval de Azevedo Marques.

Seu xará, Américo Brasiliense, antigo professor e companheiro de propaganda abolicionista e republicana, conta-nos em seu histórico livro “Os Programas dos Partidos e o Segundo Império”, (pág. 101), que o Correio Paulistano “sustentou até 1874 a bandeira republicana, devendo esta, à pena do sr. Dr.sr. Dr. A. de Campos brilhante defesa; além disso, prestou bons serviços à mesma propaganda, dando inserção às comunicações, que lhe eram enviadas dos trabalhos do partido. Contando longos anos de publicação diária, era então a folha de maior circulação nesta província”.

“A PROVÍNCIA DE S. PAULO”

Os republicanos históricos sabiam ser imprescindível fazer a propaganda dos princípios do novo sistema de governo, cujo principal meio seriam os jornais.

Quando se instalou, em Itu, em 18 de abril de 1873, a Convenção Republicana, já circulavam pelo Brasil diversos periódicos, que levavam ao público o conhecimento das vantagens desse sistema, para o desenvolvimento do país.

Durante a convenção paulista, foi discutida a possibilidade da criação de um jornal, por ser considerado o melhor veículo para propaganda do regime Republicano.

Contudo, para decepção de Américo e Bernardino de Campos, essa proposição foi afastada, por vários correligionários, que seguiram as ponderações de Jorge Tibiriça, que presidia os trabalhos. Justificando esse entendimento, Jorge Tibiriça expôs que, “naquele momento, o assunto não era dos que deveriam ser votados, por não fazer parte das bases da organização, mas que não deveriam esquecer-se, que é de suma importância e grande alcance não se descuidarem os republicanos da imprensa, elemento essencial de propaganda das ideias e princípios, que são professados pelos cidadãos presentes”.

 

FUNDADORES DO JORNAL “A PROVÍNCIA DE SÃO PAULO” – Quadro de autoria de Cândido Portinari, que enfeita as paredes da sede de “O ESTADO DE SÃO PAULO”
FUNDADORES DO JORNAL “A PROVÍNCIA DE SÃO PAULO” – Quadro de autoria de Cândido Portinari, que enfeita as paredes da sede de “O ESTADO DE SÃO PAULO”

Em pé, primeiro à esquerda, Américo de Campos

Somente em 1874, os convencionais, que haviam acompanhado os irmãos Campos, na proposta para fundação de um jornal, para dar lastro para a propaganda republicana, reuniram-se e deram vida ao periódico almejado.

Assim João Tobias de Aguiar e Castro, João Tibiriçá Piratininga Américo Brasiliense de Almeida Melo, Américo de Campos, Francisco Glicério, José Vasconcellos de Almeida Prado e Manoel Elpídio Pereira de Queiroz fundaram “A PROVÍNCIA DE SÃO PAULO”!

Américo de Campos seria o redator e Francisco Rangel Pestana o administrador.

04/01/1875. Primeiro número de A Província de São Paulo. – Acervo “ESTADÃO

 

“O DIABO COXO”

Certo dia, em um encontro de Américo de Campos, com Luiz Gama e o irmão de Joaquim Nabuco, Sizenando Nabuco de Araújo, esses lhe apresentaram um jovem italiano, de apenas vinte anos, Ângelo Agostini.

Ângelo Agostini – Caricaturista

Recém-chegado ao Brasil, dono de um espírito humorístico inigualável e de um raro dom, Agostini desenhava, com muita graça e habilidade, qualquer fato que presenciasse e que lhe despertasse a veia cômica.

Trazia sempre consigo um caderno ou folha, onde ia fazendo seus rabiscos.

Quando estava junto com os novos amigos brasileiros, ouvia atentamente os casos que contavam, os planos que elaboravam, as ideias que debatiam, as críticas que faziam da sociedade e do governo.

Enquanto ouvia, ia criando esboços em seu caderno ou em uma folha e, em um momento, estava tudo aquilo, que ali se dizia, concretizado em desenhos criativos e engraçados.

Surgiam caricaturas de Luiz Gama e Américo debatendo com seus velhos companheiros, caricaturas dos personagens políticos e religiosos, mocinhas recatadas, vendedores, passantes.

Retratava a situação dos escravos, com todo sentimento de revolta expressado por seus novos amigos.

Os desenhos mais engraçados eram os que retratavam figuras de governantes, militares, policiais, condes e barões, com suas condecorações, abusando de seus privilégios. Todos riam muito e aplaudiam esta habilidade.

Para ele, foi um aprendizado da cultura brasileira, da política do país e tudo o mais que acontecia no Brasil. Que belos professores ele teve!

Foi assim que surgiu a ideia!

Corria o ano de 1864. Os amigos resolveram publicar um jornal, inspirados pela revista “SEMANA ILUSTRADA”, editada com sucesso, há poucos anos (1860 /1875), no Rio de Janeiro, pelo desenhista alemão Henrique Fleiuss, com textos de Machado de Assis, Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho, Joaquim Nabuco, Flávio Farnese Joaquim Manuel de Macedo, Bernardo Guimarães e outros grandes escritores da época.

As caricaturas de Ângelo Agostini ilustrariam o que os redatores, Luiz Gama, Américo de Campos e Sizenando Nabuco, escrevessem, sobre as notícias políticas, os atos heroicos dos combatentes do Paraguai, e as mazelas da guerra, principalmente a maneira ditatorial com que se fazia o recrutamento dos soldados.

O DIABO COXO, desenho de Ângelo Agostini

 

Denunciariam o crime, que ainda se praticava no Brasil, de explorar o trabalho de homens escravizados, com a esfarrapada desculpa de que era uma prática necessária para sustentar a lavoura e a economia do país.

Demonstrariam o atraso no desenvolvimento da mentalidade e cultura do povo brasileiro, que a religião, desde que ligada ao governo, trazia à Nação.

A missão do jornal seria defender as causas abolicionistas e republicanas, a fazer crítica dos costumes, de forma humorística, mas sempre agindo de acordo com os mais rígidos preceitos da ética e da moral.

Caricatura dos jornalistas Luiz Gama, Américo de Campos e Pedro Taques Alvim, sendo saudados pelo “DIABO COXO” que agradece a recepção que os jornalistas de São Paulo lhe deram

 

Entusiasmados, batizaram o periódico com o nome de “O Diabo Coxo”, personagem de uma antiga história mencionada no Talmude, onde o diabo Asmodeu, o coxo, não é uma figura maligna, mas até de bom caráter e engraçado.

Outra história conta que Asmodeu, preso em uma garrafa, foi solto por um homem e, agradecido, concedeu a seu benfeitor o poder de ver através das paredes das casas, o que se passava com as pessoas no seu interior.

Era tudo isto que o jornal planejava fazer. Com humor e bom caráter, verificar o que acontecia por trás das aparências, para poder criticar os males feitos às escondidas, nos gabinetes governamentais e nas casas dos poderosos.

Agostini, rapaz inteligente e esperto, com apenas 19 anos, assimilou rapidamente o estilo do povo brasileiro e as ações do governo,

Seu humor entrosou-se com os dos jornalistas Américo, Luiz Gama e Sizenando.

Começaram a redigir os primeiros artigos e, com Agostini, urdiram as primeiras charges, que os fazia rir muito, enquanto trabalhavam. E mais riam, quando imaginavam a surpresa dos leitores ao receberem aquele tipo de publicação, que seria uma grande novidade.

Levaram seu trabalho para ser impresso na Tipografia Imperial e Litografia Alemã, de propriedade de Henrique Schroder e do velho jornalista Joaquim Roberto de Azevedo Marques, dono do Correio Paulistano.

O primeiro número do “Diabo Coxo” saiu em 17 de setembro de 1864.

O nome de Américo de Campos não deveria aparecer, para que tivesse mais liberdade de expor suas ideias, sem entrar em conflito com a função de editor do Correio Paulistano.

O sucesso foi tanto que Ângelo Agostini não dava mais conta de seu trabalho. Convidaram o pintor Nicolau de Vergara para ajudá-lo, iniciando-o na técnica da caricatura, na qual se deu muito bem

Américo, agora, vivia o seu sonho de mocidade. Poder dedicar-se integralmente ao jornalismo político, trabalhando nos dois jornais.

Por “coincidência”, apareceram em seguida, no Correio Paulistano, duas notícias não assinadas, elogiosas ao Diabo Coxo.

Como nos conta o historiador Délio Freire dos Santos, em seu livro “O Cabrião”, um comentário no Correio Paulistano, em outubro de 1864, noticiou:

“O Diabo Coxo aparece em forma de jornal e promete não cair (pelo seu primeiro número) na encharcada vereda dos pasquins. Ainda bem, já é um progresso p’ra nossa terra possuir uma folha do gosto da “Semana Ilustrada “, uma folha dedicada à caricatura, ao gracejo digno e comedido.

Outro, em 27 de novembro de 1864, informou:

“O Diabo Coxo é um jornal de que já dei notícias à leitora. Esteve interessantíssimo este último número, principalmente a gravura da 4a página. Há inspiração naquele desenho; há alguma coisa de Rafael naquela pintura. Vejam e me digam”. (Notícias dadas por Américo de Campos, no Correio Paulistano, mas não assinados por ele).

O Diabo Coxo durou pouco tempo, tendo sido publicadas apenas duas séries, com doze números cada. A primeira, a partir de 17 de setembro de 1.864, até 31 de dezembro de 1.864 e a segunda, de 23 de julho a 31 de dezembro de 1.865.

Foi um balão de ensaio, cujo sucesso deu nascimento a outro jornal, nos mesmos moldes, porém, mais organizado profissionalmente, que viria em seguida: “O Cabrião”.

O novo periódico satírico, seria também impresso na Tipografia Imperial, de Azevedo Marques, tendo como redatores Américo de Campos, Luiz Gama e com as charges de Ângelo Agostini.

O CABRIÃO

O Cabrião, jornal político humorístico, circulou entre 30 de setembro de 1.866 e 29 de setembro de 1.867, sob direção de Américo de Campos, Luiz Gama e de Ângelo Agostini, como desenhista.

 

O CABRIAO, N´1
CABRIÃO CUMPRIMENTA SEUS LEITORES

 

Ao contrário do Diabo Coxo, do qual ficaram poucos exemplares, o Cabrião tornou-se mais fácil de ser conhecido pelas novas gerações, tendo em vista a publicação de um fac-símile, em boa hora patrocinado e impresso pela Editora da Universidade Estadual Paulista, como apoio à Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Essa impressão tornou-se possível graças ao trabalho do historiador e excelente pesquisador, Délio Freire dos Santos, que estudou a fundo as edições do Cabrião e publicou excelente ensaio a respeito: “Primórdios da imprensa caricata paulistana: O Cabrião”.

Para completar o grupo de redatores do novo jornal, Américo convidou Antônio Manoel dos Reis, pois lhe conhecia bem a formação intelectual e política, que comungava com a sua, desde os tempos em que frequentavam juntos as aulas da Faculdade de Direito e se identificavam durante as discussões no pátio da Escola e pelas noites paulistanas. Nele também pulsava a boa veia jornalística.

“Recebe-se artigos e desenhos em carta dirigida á Redacção do CABRIÃO—na livraria do Snr. Garraux, pateo da Sé n.» l, onde assigna-se este jornal .”

Se “O Cabrião” fazia muito sucesso entre a população de São Paulo, suas opiniões e críticas zombeteiras ao comportamento autoritário do Presidente da Província, aos privilégios oferecidos pelo Governo às classes dominantes, à falta de generosidade e modéstia dos clérigos, o pensamento livre, democrático e sem peias, que norteava a atuação do periódico, desagradou os poderosos, que se puseram a atacá-lo.

O Diário de São Paulo, que pertencera ao jornalista Pedro Taques de Almeida Alvim, antigo redator do Correio Paulistano, homem de formação humanista e liberal, foi vendido a Cândido Silva, de formação diametralmente oposta e que lhe deu nova feição, com o apoio que dava ao Governo e se dispôs a enfrentar o semanário humorístico, a fim de desqualificá-lo.

O CABRIÃO defendeu-se, com a pena de Américo de Campos:

Até o presente elle tem sabido desprezar as intrigas, as injurias, as cartas anonymas e as diífamações impressas, contra pessoas respeitáveis. Não receieis que elle se intimide; a luta é a vida. São conhecidos os jesuítas que o perseguem, e o meio de contel-os é fácil. Víve? Ri exaltando o mérito, combatendo o ridículo, criticando os costumes e profligando os abusos

O Cabrião contenta-se em rir com o público à custa dos pobres de espirito.”

A inimizade cresceu e Cândido Silva processou Américo de Campos, quando esse publicou na edição de 4 de novembro de 1866, no Cabrião, uma caricatura feita por Agostini, que, no dia de finados, resolvera fazer graça, mostrando um bando de esqueletos, se divertindo com os vivos, pelas alamedas do Cemitério da Consolação, todos bêbados.

DIA DE FINADOS NO CEMITÉRIO DA CONSOLAÇÃO Cabrião, número 6, novembro de 1866

 

Cândido da Silva processou Américo de Campos, sob a alegação deste ter ofendido a moral e a religião.

Moderno demais para a época em que foi publicado, muitos habitantes da cidade ofendidos com as críticas mordazes e irreverentes chegaram a empastelar o jornal, causando grande prejuízo a seus donos. Mas a maioria o apreciava e alguns o assinavam, mas poucos pagavam.

As dificuldades financeiras deram cabo do Cabrião. Com grande dor no coração e com protestos de seus admiradores, Américo e seus companheiros fecharam o jornal, após a publicação do 51º número, no dia 29 de setembro de 1867. Durou um ano, mas fez história!

 

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