Difamação – Defesa de Targini
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I – DIFAMAÇÃO – DEFESA DE FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI – RECORRENTES ERROS NA SUA BIOGRAFIA, QUE LEVAM À INJUSTA DIFAMAÇÃO DE SEU NOME.
“Nada pode mudar a verdade, só se pode buscá-la, reconhecê-la e segui-la”. São Maximiliano Kolbe (1894-1941).
E eu acrescento: – “E divulgá-la”.
JOSÉ MARIA TARGINI
(SOBRINHO HERDEIRO DO VISCONDE DE SÃO LOURENÇO)
Francisco Bento Maria Targini, primeiro Visconde de São Lourenço, da nobiliarquia portuguesa, nascido em Lisboa, foi Tesoureiro Mor do Erário, no Brasil, durante o Reinado de D. João VI, a quem admirava profundamente e serviu com lealdade, até a volta da Família Real a Portugal, em 1821.
A amizade e admiração por D. João VI era recíproca e isto, mais o poder, que lhe conferia o cargo, e a rigidez, com que mantinha os gastos, com o dinheiro público, lhe granjeava um grande número de desafetos e tramoias, para derrubá-lo.
D. João VI – por Henrique José da Silva
Por outro lado, seu posicionamento político, muito conservador, ferrenho defensor do poder absoluto do Monarca, desencadeou uma série de intrigas contra ele, por parte dos defensores das teorias liberais. Entre eles, sobressaia-se Hipólito José Pereira Furtado de Mendonça da Costa, há muitos anos radicado em Londres, que não lhe dava trégua.
O jornalista brasileiro, que adquirira a cidadania inglesa, fundara um jornal , “O Correio Brasiliense”, com uma única meta: fazer propaganda dos princípios liberais.
Formando dupla com Hipólito, achava-se o jornalista João Bernardo da Rocha Loureiro, fundador do jornal ” O Português ou Mercúrio Político, Comercial e Literário”, também adversário implacável dos políticos absolutistas. Tomando uma postura fundamentalista, seguia os métodos do redator do Correio Brasiliense, destruindo personalidades do governo, em busca da ascensão de um governo liberal.
Hipóllito da Costa criticava a escolha de Targini, para Tesoureiro do Erário Real, por ser um ferrenho defensor do absolutismo. Como estratégia, para enfraquecê-lo e derrubá-lo, pintava o Tesoureiro Mor como um “ignorante, que mal tinha conhecimento dos princípios básicos de escrituração e de quem nunca se ouvira falar que tivesse uma só boa qualidade”. (“O Correio Brasiliense”).
Eram estas as principais armas de Hipólito da Costa e de João Bernardo da Rocha Loureiro: usarem da ironia, da falsidade e da ofensa, para conseguirem seus propósitos, em uma época que ainda não se falava em ética, no jornalismo, e se empregava o conselho de Maquiavel, sem qualquer pejo: “O fim justifica os meios”.
Por ser um nobre e funcionário direto do Rei, o costume e a etiqueta obedientes à norma palaciana da “noblesse oblige”, não permitiam a Targini se defender, pelos mesmos meios impressos.
Chegava mesmo a brincar ironicamente a respeito dos epigramas publicados para difamá-lo. Assim, os jornalistas se aproveitavam disto, para enfraquecer seu poder e tentar derrubá-lo de seu posto.
Contudo, todos os que privavam com Targini, e até mesmo Hipólito, sabiam bem que, o Tesoureiro Mor era um profundo conhecedor de Finanças Públicas, tendo frequentado e se formado em 1774, na 4ª turma da famosa ESCOLA DE COMÉRCIO DE PORTUGAL, recentemente fundada pelo Marquês de Pombal.
Não era fácil conseguir se matricular na Escola de Comércio. Seus estatutos exigiam, além deconhecimentos gerais, que o aluno pertencessea uma família de homens de negócio e comerciantes abastados.
Com a fundação da Escola , as nomeações para diversos cargos públicos, em Portugal e nas Colônias, ficaram restritas a estudantes e diplomados da Aula de Comércio (Carta de Lei, 30 deAgosto de 1770) como, por exemplo, na Junta de Comércio, Real Erário, Secretarias de Estado, funcionários de navios, escriturários do exército, funcionários de empresas de comércio monopolistas(Rodrigues et al., 2004).
Como escrivão do Real Erário, Targini, em começo de carreira já recebia um salário anual substancial de 1.800$000 réis.
No entanto, posteriormente, com veremos, com o apoio do Marquês de Pombal, os comerciantes e os guarda-livros conseguiram obter distinções honoríficas, tendo-se qualificado como membros de ordens religiosas e militares
Desde a mocidade, quando serviu na Corte portuguesa, aos dezenove anos, junto ao Marquês de Pombal, o Tesoureiro Mor era reconhecido como escritor, ótimo financista, tradutor, introdutor da Filosofia de Kant, em Portugal e no Brasil. Falava e escrevia o grego, o latim, o inglês, o francês, o italiano, o espanhol, além de gostar de escrever poesias.
PORTARIA ASSINADA PELO MARQUÊS DE POMBAL,
ELABORADA POR FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI AOS 19 ANOS – 14/09/1775
Seus serviços de contabilidade, prestados ao Marquês de Pombal, possibilitaram- lhe fosse nomeado, pela rainha D. Maria I, para prestar serviços na Corte.
Produziu várias obras literárias, mas se tornou famoso pela tradução, do inglês, de “O Paraíso Perdido”, obra de John Milton, das mais importantes da literatura Universal, ao lado da Divina Comédia e dos Lusíadas. Seu trabalho é considerado, até hoje, o melhor, que se fez desse poema épico, na língua portuguesa. As notas explicativas, cuidadosamente colocadas junto à tradução, demonstram, ainda, grande erudição e profundo conhecimento da Bíblia e da Mitologia.
John Milton, Paradise Lost, Book I, vv. 1-58:
Of Man’s first disobedience, and the fruit
Of that forbidden tree whose mortal taste
Brought death into the World, and all our woe,
With loss of Eden, till one greater Man
Restore us, and regain the blissful seat,
Sing, Heavenly Muse, that, on the secret top
Of Oreb, or of Sinai, didst inspire
That shepherd who first taught the chosen seed
In the beginning how the heavens and earth
Rose out of Chaos: or, if Sion hill
Delight thee more, and Siloa’s brook that flowed
Fast by the oracle of God, I thence
Invoke thy aid to my adventurous song,
That with no middle flight intends to soar
Above th’ Aonian mount, while it pursues
Things unattempted yet in prose or rhyme.
And chiefly thou, O Spirit, that dost prefer
Before all temples th’ upright heart and pure,
Instruct me, for thou know’st; thou from the first
Wast present, and, with mighty wings outspread,
Dove-like sat’st brooding on the vast Abyss,
And mad’st it pregnant: what in me is dark
Illumine, what is low raise and support;
That, to the height of this great argument,
I may assert Eternal Providence,
And justify the ways of God to men.Say first—for Heaven hides nothing from thy view,
Nor the deep tract of Hell—say first what cause
Moved our grand parents, in that happy state,
Favoured of Heaven so highly, to fall off
From their Creator, and transgress his will
For one restraint, lords of the World besides.
Who first seduced them to that foul revolt?Nine times the space that measures day and night
To mortal men, he, with his horrid crew,
Lay vanquished, rolling in the fiery gulf,
Confounded, though immortal. But his doom
Reserved him to more wrath; for now the thought
Both of lost happiness and lasting pain
Torments him: round he throws his baleful eyes,
That witnessed huge affliction and dismay,
Mixed with obdurate pride and steadfast hate.
TRADUÇÃO POR FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI
Livro 1, vv. 1-64:
A primeira fatal desobediência
Do homem, e da vedada árvore o fruto,
Cujo gosto mortal, ao mundo, trouxe
A morte e todas as desgraças nossas,
Co’a perda do Éden, até, que um outro homem
Maior nos restaurasse a posse dele;
Canta, celeste Musa, que do oculto
Cimo do Horeb ou do Sinai, ditaste
Ao Pastor, que primeiro à raça eleita,
Ensinou como foram no princípio
Céus e Terra do Caos levantados!
E, se mais te deleita o monte Sion
De Silo as águas, que avizinham
De Deus o oráculo, eu de lá invoco
O auxílio teu a meu ousado canto,
Que não com médio voo sublimar-se
Do Aônio monte acima quer, traçando
Ação jamais cantada em prosa, ou verso.
E tu principalmente, ó Divo Espírito,
Que preferes, aos templos, um sincero
E puro coração: Ó tu me inspira,
Pois, que, antes de haver tempo, tudo vias.E qual a Pomba sob as pandas asas
O abismo fecundaste; ora dissipa
Da mente minha as trevas, o que humilde
Tiver levante, afim que altas ideais
Correspondam do assunto à gravidade,
Para que a Providência eterna prove
E de Deus justifique a Lei aos homens.
Dize primeiro, pois que o Céu e Inferno
Nada pode ocultar-te; a causa dize,
Que moveu nossos pais, de glória cheios,
E do Céu tão queridos, a perderem
Do Criador a graça, transgredindo
Sua vontade num leve preceito;
Do mundo sendo todo já senhores?
Quem primeiro à revolta os seduzira?
O Dragão infernal foi com astúcia,
Por inveja movido, e por vingança,
Quem o mau enganou da humanidade,
No tempo em que dos Céus,aquele espírito,
A soberba expulsara, com as hostes
Dos rebelados Anjos, que o seguiram,
E com que pretendera sublimar-se
De seus iguais acima, pressupondo
Do Altíssimo igualar a onipotência,
Se lhe obstasse; movendo ambicioso,
Contra o trono de Deus e monarquia,
Crua guerra no Céu, precipitando de cabeça,
Ardendo em raios das esferas que ara,
Num abismo sem fim de fogo eterno,
Onde atado a grilhão diamantino
Jazerá para sempre atormentado,
Por competir ousar com Deus superno.Nove sóis, nove noites, aos humanos
O tempo repartira, enquanto rolam
O Espírito infernal e seus sequazes,
Através o ígneo golfo já vencidos,
E em confusão horrível misturados;
Sem lhes valer o ser de imortais entes:
Tal condição ao chefe derrotado
Aumenta muito mais a dor, a raiva,
Vendo agora o bem alto que perdera,
E o tormento sem fim em que jaz.
SOLAR DE FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI NA RUA DOS INVÁLIDOS ESQUINA DA RUA RIACHUELO, RJ, BR
Apesar de, desde seus 19 anos de idade, trabalhar para a Coroa, sempre em altos cargos, com ótimo ordenado, o único bem que possuiu foi uma casa, no Rio de Janeiro, na Rua de Matacavalos, hoje do Riachuelo, esquina com Rua dos Inválidos. Em 1820, já na idade madura, graças ao bom ordenado que recebia e às economias de uma vida inteira, adquiriu a casa do oficial das ordenanças do Paço, Antônio da Cunha.
Ao contrário das críticas que se fez a Targini, ninguém se admirou do ordenança ter podido construí-la, e ele ocupava um cargo cujos vencimentos eram bem menores que os do Tesoureiro Mor. Targini a reformou e a transformou em uma elegante e confortável residência. Contudo, seus inimigos, num contínuo projeto de difamação de seu nome, espalhavam que seus proventos não deveriam ser suficientes para isto e, portanto, o dinheiro para a reforma deveria ter sido roubado do Erário.
Afirmações sem provas e sem argumentações, jogadas no ar, com malícia e má fé, mas que como se sabe, estes tipos de infâmia têm grande força e são logo recebidas como verdades pelo povo.
Solar foi tombado e deixado em ruínas. Hoje, em seu pátio interno, funciona um pequeno estacionamento a céu aberto.
Na mesma rua existem solares muito maiores. O de Targini não era dos maiores do Rio de Janeiro, como dizem.

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Durante sua estadia no Ceará, para onde fora, em 1783, nomeado como escrivão da provedoria da capitania, mediante Patente Régia de Sua Majestade, trabalhou em um ambiente hostil, criado por sua atitude firme de coibir a malversação do dinheiro público, como era costumeiro no lugar, o que lhe granjeou vários inimigos. A saga de sua passagem pelo Ceará foi muito bem narrada,pelo historiador cearense Guilherme Studart, em seu livro “Notas para a História do Ceará”.
Valendo-se de centenas de documentos, a obra é imprescindível,para quem quer conhecer, com profundidade, a época em que o Brasil foi uma Colônia de Portugal.


Perseguido politicamente, recebeu a proteção de D. João VI, que acreditava em sua integridade e, por conhecer sua competência e trabalho, o nomeou Tesoureiro Mor do Erário, concedeu-lhe o título de Barão e depois de Visconde de São Lourenço.
Acompanhou, em 1821, a Família Real, em seu retorno a Portugal. Porém, por ser conservador, os liberais, que exigiam a assinatura da Constituição por D. João VI, não o deixaram descer em Lisboa, bem como outros fidalgos da confiança do Rei. Foi, então, estabelecer-se na França, onde morreu, vivendo da pensão que lhe foi concedida, por D. Pedro I, por direito. Ao morrer, seu inventário provou que não havia tanto dinheiro como o proclamado.
Durante sua vida, enfrentou, com sabedoria e altivez, perseguições, maledicências, infâmias plantadas por inimigos pessoais e públicos. Criava inimigos,que não suportavam sua rigidez, sempre que se tratava de gastos com o dinheiro do Erário Real.
Era temido pelos inimigos da Monarquia que, entre outras ações, usavam o ardil de destruir a reputação dos mais influentes homens do Governo, para enfraquecê-los perante a opinião pública, como foi feito na França e nas Colônias espanholas da América do Sul, que se tornaram Repúblicas.
Os nobres portugueses, que acompanharam D. João VI em sua vinda para o Brasil, recebiam polpudas pensões, sem trabalhar. Targini tentava conter a sanha com que alguns, exageradamente, recorriam ao Tesouro, mas D. João VI, com sua conhecida bondade e lembrando-se das adversidades que esses companheiros de infortúnio haviam sofrido, na dolorosa empreitada de salvar o governo de Portugal, mandava abrir-lhes a bolsa com frequência, desautorizando Targini.
Assim, o Tesoureiro Mor, contra sua vontade, ia fazendo os pagamentos, mas, ironicamente, lhes aconselhava: “-Aproveitem enquanto a vaca tem leite”.
Para melhor elucidar esses fatos, nada como a narrativa feita por Joaquim Manoel de Macedo, no seu SUPLEMENTO BIOGRAPHICO, Fls. 358 — 3 5 9:
“Durante o período de treze anos e dois meses menos dias, com que se manteve na idade do Rio de Janeiro a capital da Monarquia portuguesa correram, abusivamente exageradas, as despesas do Erário Régio, e diziam alguns que por isso muitas vezes faltava á ele o dinheiro. Outros, asseguravam que Targini (á quem sobraram desafetos e invejosos do favor que ele tinha na corte) adiava longa e excessivamente pagamentos no Erário, tendo agentes que se empregavam em descontá-lo. Aleive, ou verdade, pois que a suspeita é gravíssima, e não temos provas para considerá-la fundamentada, propalava-se como se fosse certa, e conta-se até curiosa anedota ou real, ou imaginária, e neste caso eivada de insinuação maligna. Diz-se que um D. Fernando, fidalgo português de tradicional excentricidade, fazia grande ruído e maltratava com acres palavras, e epigramas ferinos, á Targini, quando ia ao Erário receber honorários ou pensão, e lhe adiavam o pagamento por faltar dinheiro, e que Targini, queixando-se disso ao príncipe regente D. João, este, um dia de recepção no Paço, dissera a D. Fernando, depois de censurar-lhe o procedimento:
– Proíbo-lhe pronunciar palavra alguma que desaire ou injurie o Targini.
Cumpre lembrar que Targini tinha de menos uma vista, era cego de um dos olhos. E a tradição assegura que o original D. Fernando ao retirar-se do Paço, encontrando-se com o Targini, indicara-lhe mudo, mas empregando mímica, muito expressiva, que se não lhe pagasse a pensão, lhe furaria o único olho com que via.
Targini voltara sobre seus passos a denunciar a D. João o novo insulto recebido, D. Fernando que o seguira, respondera ao príncipe regente, que ressentido o interrogara:
— Senhor, Vossa Alteza Real proibiu-me pronunciar a palavra, e eu não falei. Apenas empreguei a mímica que é muda para ver se este homem me dá o dinheiro sem desconto.
E a tradição, verdadeira ou falsa, acaba informando, que o príncipe regente á rir, dissera:
— Targini, livra-te de D. Fernando, pagando-lhe á boca do cofre.
Como quer que fossem as suspeitas e acusações, Francisco Bento Maria Targini foi por ocasião do aniversário natalício da Rainha D. Maria I, e do batizado de seu neto, o infante D. Sebastião, em 1811, agraciado com o titulo de Barão de São Lourenço, e tão estimado e válido continuou a ser na corte, que D. João, já Rei em 1819, o elevou de Barão de S. Lourenço á Visconde do mesmo titulo, quando distribuiu graças e títulos em honra do nascimento e batismo de sua neta a principal D. Maria da Gloria, mais tarde Rainha de Portugal”.
Targini só abria a arca, se o Monarca lhe ordenasse. E, muitas vezes, teve de fazê-lo, mas nunca em seu proveito.
Valho-me do pensamento de Andrea De Laurentiis Ricci Peres , Prof. laureada pela Faculdade Metodista de Piracicaba, para ilustrar o que defendo.
O poder que a palavra escrita possui
“O poder da palavra não se limita ao ignificado linguístico dela, mas da maneira que muda a vida de alguém. Palavras podem “matar” sentimentos, ferir, mentir, esclarecer, salvar, transformar. Palavras têm poder, não são inócuas, principalmente as escritas. A sensibilidade para transformar palavras faladas em escritas tem um legado sério demais, pois exige reflexão, a escolha de cada uma é determinante, pois se antes, quando ditas, tinham poder, que era momentâneo, apenas de causa, depois de escritas, conseguem o poder perpétuo, não apenas casual, mas efetivo. “
II – “Do ladrão ao barão”
Pela dedicação com que prestou, durante toda a vida, seus serviços à Coroa, não pude aceitar como válido o uso que a curadora da Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, Isabel Lustosa, fez da figura de Francisco Bento Maria Targini, quando o citou como exemplo, ao ilustrar um artigo seu sobre a corrupção dos políticos atuais.
Publicado em 03 de junho de 2007, no jornal Folha de São Paulo, com o título “Do ladrão ao barão”, pela historiadora e pesquisadora Doutora em Ciência Política pelo IUPERJ, desde 1985, e portadora de muitos outros títulos, ninguém pôs em dúvida a veracidade de suas afirmações.
Inspirados nessa publicação, uma enxurrada de artigos sobre política e corrupção surgiram na mídia brasileira, repetindo as mesmas palavras usadas no artigo citado e incorrendo em erros que foram e continuam sendo transmitidos de autor para autor, solidificando a difamação de seu nome, sem citarem um único documento que comprove suas afirmações.
Até mesmo um professor de conhecido colégio paulistano, mediante distribuição impressa à sua classe, usou esse artigo que difama o nome de Francisco Bento Maria Targini, ao pretender dar conhecimento a seus alunos, de como são antigos os casos de políticos corruptos no Governo brasileiro.
Também diversas teses acadêmicas, como publicadas na Internet, foram apresentadas, com base no artigo da historiadora Isabel Lustosa, sem qualquer contestação da banca examinadora.
O artigo da Doutora Isabel Lustosa, publicado em 03 de junho de 2007, no jornal Folha de São Paulo, possui diversas falhas, o que nos faz refletir sobre a responsabilidade do historiador, quando faz qualquer afirmação.
A responsabilidade ao escrever artigos, e publicá-los, faz parte intrínseca de sua formação e, portando, os dados repassados devem estar apoiados em profunda pesquisa e documentos, principalmente quando se trata de difamar o nome de um cidadão de bem.
Transcrevo e rebato as afirmações feitas no artigo sobre Francisco Bento Maria Targini, que se tivessem sido feitas após uma pesquisa completa, análise de documentos e meditação baseada em sua experiência, sem dúvida, jamais seriam citadas, pelo menos com tanta certeza, pela eminente historiadora.
Diz a Dr. Isabel Lustosa:
1 -“Targini era filho de um italiano e começara a carreira numa casa de comércio como caixeiro, progredindo depois para guarda-livros”.
A profissão de guarda livros era altamente qualificada e respeitada e, geralmentes, eram contratados os melhoes profissionais na Itália. A profissão de Cristóvão atesta a alta posição que a família do investigado possuía. Na sociedade portuguesa, a aprovação se valia de uma grande quantidade de dados profissionais, investigações, inquirições, testemunhos, situação econômica, etc., que, caso não fossem aprovados, não se poderia obter a licença para participar da vida da Corte Portuguesa. Investigava-se, principalmente, a ascendência das pessoas que queriam o certificado de Familiar do Santo Ofício. Tudo o que se referia aos pais, avós, bisavós, e o mesmo se faziam quanto aos ascendentes da esposa.
Esta aprovação era um documento valioso, que a

Talvez, a Drª Isabel Lustosa tenha se valido de informação equivocada, que também deverá ser corrigida, do Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, de Portugal, de João Romano Torres – Volume VI, págs. 697-698.
Nas notas iniciais, dirigidas ao leitor, João Romano Torres explica que tomou como norte, para seu trabalho, “a descrição histórica e corográfica de todas as cidades, vilas e outras povoações do continente do Reino, Ilhas e Ultramar, monumentos e edifícios mais notáveis, tanto antigos como modernos; biografias dos portugueses ilustres antigos e contemporâneos, célebres por qualquer título, notáveis pelas suas acções, pelos seus escritos, pelas suas invenções ou descobertas; bibliografia antiga e moderna; indicação de todos os factos notáveis da história portuguesa, etc., etc.”
Observe-se a quantidade de informações complexas contidas na proposta de elaboração do Dicionário.
Para tanto, João Romano Torres contratou numerosos colaboradores, cada um com um método, com sua maneira de investigar, o que deu lugar a certa incoerência.
Para dar a uniformidade possível ao trabalho, incumbiu para a redação final Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, dando lume à obra, em Lisboa, aos 25 de Março de 1904.
O que marca esse trabalho é a honestidade de seu editor, quando declara que o Dicionário é composto de “avultadíssimo número de publicações das especialidades de que trata, cuja consulta, nem sempre fácil, é oferecida ao leitor nos seus tópicos mais interessantes. Para conseguir este fim temos envidado os maiores esforços. É certo que um grande número das imperfeições, que em geral se notam nos dicionários, são especialmente motivadas por uma colaboração variadíssima (o grifo é nosso). Os nomes dos numerosos colaboradores, embora colhidos de entre os mais apreciados no meio literário e científico, originam umas diferenças de opinião, de critério e de método, que tornam a obra inferior, pelo menos na sua unidade. Não há direcção que eficazmente possa obstar a tais defeitos, porque isso reclama muito tempo, grande cautela, a maior atenção e infinita paciência. É forçoso fazer as comparações necessárias e as mais conscienciosas investigações. No dicionário “Portugal” procuramos obviar aqueles inconvenientes, confiando-o exclusivamente a dois redactores, cujas faculdades de trabalho nos eram bem conhecidas e penhor de bom desempenho de tal encargo. Não ocultaremos os embaraços com que os operosos redactores do “Portugal” têm lutado desde que anuíram em executar o nosso projecto. “Essas dificuldades são as peculiares aos empreendimentos congéneres; já esperadas, não causam desfalecimento”.
Observa-se, portanto, que o próprio autor concorda que há um grande número de imperfeições e defeitos no Dicionário e, sem dúvida, as informações sobre a origem e a carreira de Francisco Bento Maria Targini incorrem nestas falhas, pois os documentos existentes demonstram outra realidade da ali afirmada.
O pesquisador que desejar informar a origem de Francisco Bento Maria Targini ou outras figuras da História de Portugal, não poderá se basear somente no Dicionário de João Romano Torres, que honestamente reconheceu que nele poderá haver muitas imperfeições, por ter sido feito por muitas mãos. Haverá a necessidade de obter-se outros documentos, para se confrontar as informações.
2 – “… Na vida pública, seu primeiro cargo importante foi o de arrecadador de rendas da Província do Ceará”.
Também não procede esta informação, pois, antes disso, Francisco Bento Maria Targini, aos dezenove anos já assessorava o Marquês de Pombal, nos assuntos financeiros. Exerceu seu primeiro cargo importante em 1776, na Corte Portuguesa, nomeado, aos vinte anos, como Escrivão da Fazenda Real, onde se destacou. Ali serviu durante sete anos, até 1783, quando, então, foi nomeado como escrivão da provedoria da capitania, mediante Patente Régia de Sua Majestade, com todos os privilégios que o cargo trazia e com ordenado igual ao soldo do capitão-mor e governador. (NOTAS PARA A HISTÓRIA DO CEARÁ, Guilherme Studart).
3 – “Nomeado em 1783, lá permaneceu até 1799”.
Targini não ficou, como se afirma, até 1799. Foi sim nomeado em 1783 como escrivão da provedoria da capitania do Ceará, mediante Patente Régia de Sua Majestade, mas tendo em vista os desentendimentos com o Governador João Batista de Azevedo Coutinho de Montaury, voltou a Portugal em 1787, onde, novamente, serviu junto à Fazenda Real.
Somente após 12 anos, com a emancipação da Capitania do Ceará da de Pernambuco e com a criação da Junta de Fazenda Autônoma do Ceará, em janeiro de 1799, Francisco Bento Maria Targini voltou ao Brasil, nomeado por despacho da rainha D. Maria I, já no dia 25 daquele mês, como Escrivão e Deputado da Junta.
4- “Targini veio para o Rio com a corte em 1807”.
Targini não embarcou com a Corte, em 1807, pois nessa ocasião se achava no Ceará, exercendo o cargo de escrivão e deputado, na Junta de Fazenda Autônoma daquela Província, para o qual fora nomeado, como acima relatamos, mediante Patente Régia de Sua Majestade. (NOTAS PARA A HISTÓRIA DO CEARÁ, Guilherme Studart).
Porém, assim que chegou ao Brasil, D. João VI criou, pelo Alvará de 28 de Junho de 1808, o Erário ou Tesouro Geral e Público, e a ele subordinado um Conselho da Real Fazenda.
Tendo conhecimento de que Francisco Bento Maria Targini estava no Brasil, convocou-o imediatamente para compor o Conselho da Real Fazenda. Foi assim que Targini voltou a trabalhar junto à Corte, nomeado Tesoureiro Mor, por Alvará de 13 de Outubro de 1808.
5 – “Ao que parece, sua rápida elevação a homem forte das finanças da época teve o apoio de um poderoso grupo de negociantes ingleses”.
Note-se que a Drª Isabel Lustosa não afirma que Targini devia sua rápida elevação a homem forte das finanças ao apoio de um poderoso grupo de negociantes ingleses. A historiadora teve o cuidado de informar que “ao que parece” teria acontecido isto. Conjecturas, boatos, que sempre acompanham essas nomeações. Não há nenhuma prova disso. Ao contrário, sua rápida nomeação para o Conselho do Real Erário, quase junto com sua criação, não deu tempo para conchavos ou pressões de quem quer que seja, mas se deu pelo conhecimento de sua capacidade e pela confiança, que D. João depositava em sua pessoa, por já conhecê-lo de Lisboa, quando prestava seus serviços na Corte, desde o tempo do Marquês de Pombal.
6 – “Santos Marrocos menciona em suas cartas que, no Rio de Janeiro, circulavam muitos pasquins contra Targini com quadrinhas como esta: Furta Azevedo no Paço/ Targini rouba no Erário/ E o povo aflito carrega/ Pesada cruz ao Calvário”.
Pelo valor que a Drª Isabel Lustosa dá ao depoimento de Santos Marrocos, parece, para quem não o conhece, que se trata de conhecido historiador. Uma simples observação epistolar de Marrocos a seu pai, ganha o valor de um argumento de autoridade, de magister dixit . O que se sabe de Luiz Joaquim Santos Marrocos , filho e ajudante do pai, bibliotecário da Corte, em Lisboa, é que, por ocasião da vinda da família Real ao Brasil, foi designado, para acompanhar e cuidar da Biblioteca trazida ao Brasil e se encarregar de sua instalação, no Rio de Janeiro. Nunca foi historiador e o que conta em suas cartas ao pai, em tom coloquial, não pode ser tratado como se fosse uma pesquisa, mas como simples notícia, verdade ou não, do que se falava, no momento, no Rio de Janeiro.
Marrocos adorava frequentar o palácio, aonde ia todos os dias beijar a mão de D, João e recolher as últimas fofocas. Quem lê suas cartas, chega a achar graça e a compará-lo ao personagem “O doente imaginário”, de Molière. Fala constantemente em sua má saúde e no sofrimento causado pelo clima do Rio de Janeiro e dos tratamentos que faz para aliviar suas dores. Apenas, em uma de suas cartas, relata, casualmente, que leu, em pasquins, quadrinhas que mordazmente brincavam com Targini e Azevedo chamando-os de ladrões do dinheiro público. Os inimigos de Targini, sempre procurando qualquer coisa para difamá-lo, esquadrinharam esta correspondência, dando enorme divulgação da carta de Marrocos e, assim, o tornando famoso.
Justamente foram essas quadrinhas, vindas da pena de difamadores profissionais, que me levaram a estudar a origem desses textos “difamatórios, tendenciosos, mal intencionados, indecentes e de excelente leitura”, como os classifica o historiador de Harvard Robert Darnton, em seu excelente livro “O Diabo na Água Benta”.
Darnton trata em seu interessante livro, dos inúmeros escroques desclassificados, como eram chamados os escritores que se dedicavam a enxovalhar biografias alheias. Esses escritores eram chamados de libelistas, isto é, os autores dos “relatos escandalosos das questões públicas e da vida privada das grandes figuras da corte e da capital. Súcia de mascates literários”, como os descreve Darnton.
Aprendi com o citado historiador de Harvard, que os libelistas, escritores repudiados em seus países, imigravam para Londres, onde havia mais liberdade de expressão, fosse ela para o bem ou para o mal. “Faziam o seu trabalho, em geral, a soldo de políticos que queriam ver a desgraça pública de seus rivais O chefe da polícia da França, já em 1774, os chamava de “excrementos da literatura”, mas em vão, pois eles já faziam parte do próprio sistema político do Antigo Regime. Muitos libelos eram encomendados por gente da corte, que havia percebido a irresistível força da “voz das ruas”, então traduzida pela literatura, para alimentar intrigas e se agarrar ao poder.
Os libelos, porém, se os estudarmos de perto e os examinar ao longo dos séculos, têm algumas características peculiares. Incorporavam certos ingredientes básicos cujos nomes nos soam familiares: “anedotas”, “retratos”, “nouvelles” (noticias anedóticas ou anedotas noticiosas) mas, na verdade, eram técnicas retóricas consagradas para agradar os primeiros leitores modernos. Ao destruírem reputações, ajudaram a deslegitimar regimes e a derrubarem governos, em diversas épocas e governos”.
Haja vistas para o plano de destruição da reputação de Maria Antonieta, classificando-a de mulher devassa e cuja mais leve das infâmias que os libelistas lhe atribuíram, e que hoje se sabe que nunca foi dita, foi a frase: “Se o povo não tem pão, que comam brioches”.
Em Portugal e no Brasil não era diferente. O reinado de d. Maria I e de D. João VI se viram envolvidos pelas grandes mudanças da sociedade, influenciadas pelas doutrinas dos filósofos iluministas, pelas guerras napoleônicas e pelas lutas pela independência encetadas pelas colônias das Américas.
No Brasil, além de outros, o maior foco dos libelistas era derrubar o homem forte do poder real: Francisco Bento Maria Targini, o leal e incorruptível servidor da Monarquia, apelidado desde o tempo que serviu no Ceará, de “o Cérbero do Erário”, isto é, o terrível cão que vigiava ferozmente as portas do Inferno.
A postura rígida e austera de Targini, quando se referia a qualquer gasto público, postura esta que lhe integrou o caráter, até o fim de sua vida, sempre irritou profundamente aqueles que tentavam ludibriar, fazer negociatas e apossar-se, indevidamente, de valores que pertenciam ao Real Erário. Por outro lado, seus princípios conservadores, além de ser adepto do Regime Absolutista, por lealdade a seu rei, lhe granjearam poderosos inimigos políticos, seguidores dos princípios liberais ou republicanos, que se juntaram aos demais e faziam de tudo para lhe denegrir o nome, sempre o difamando e tramando, para afastá-lo dos altos e importantes cargos que os Monarcas lhe confiavam.
Aliás, foi o Próprio D. Pedro I, já no poder, que aprovou as contas apresentadas por Targini, isentando-o de todas as calúnias e, ainda, lhe concedeu uma pensão suficiente para viver com conforto, em seu exílio em Paris. E saiba-se que D. Pedro não morria de amores pelo Tesoureiro Mor, pois, quando mocinho, vivia às turras com Targini, por este lhe negar dinheiro para suas farras e limitar o valor que lhe era concedido, para suas despesas pessoais.
Se Targini roubasse do Erário, logicamente não se negaria a encher os bolsos do Príncipe, que um dia herdaria o trono, para lhe conquistar a confiança. Mas não. Para ele, o Erário era sagrado e só fazia exceção para D. João VI.
Por ser assim, era conhecido como “o Cérbero do Erário”, isto é, o cão que vigiava ferozmente as portas do Inferno.
III – JORNALISTA LAURENTINO GOMES – DÁ COMO VERÍDICOS FATOS APRESENTADOS POR OUTROS ESCRITORES, QUE DIFAMAM O NOME DO VISCONDE DE SÃO LOURENÇO, COPIANDO-OS SEM TER PESQUISADO SE ERAM VERDADEIROS.
Outro escritor, que em seu livro “1808”, se refere a Targini usando informações totalmente inverídicas, copiadas não se sabe de quem, foi Laurentino Gomes.
Laurentino Gomes, na introdução de seu “bestseller” 1808, declara que para sua consecução procurou dar a versão mais correta possível dos fatos e dos protagonistas da História da corte brasileira no Brasil e, para isto “se baseou em relatos e documentos históricos, exaustivamente apurados e checados”. (Fls.24).
No entanto, quando às folhas 194 do livro, se refere a Francisco Bento Maria Targini, apresenta uma biografia do Tesoureiro Mor de D. João VI deturpada, em todos os seus termos, indicando como fonte a página 309 do livro de Tobias Monteiro, “História do Império”.
Assim, escreve que: “De origem italiana, Targini era de família catarinense pobre e humilde. Entrou no serviço público como guarda-livros, um trabalho menor na burocracia do governo da colônia. Como era inteligente e disciplinado, virou escrevente do erário e logo chegou ao mais alto cargo nessa repartição. Com a chegada da realeza ao Brasil, passou a acumular poder e honrarias. Encarregado de administrar as finanças públicas, o que incluía todos os contratos e pagamentos da corte, enriqueceu rapidamente. Ao final do período de D. João no Brasil, sua casa, com dois andares e sótão, situada na esquina da Rua dos Inválidos com Riachuelo, era uma das maiores do Rio de Janeiro.
Em meio à revolução constitucionalista de março de 1821, foi preso e teve seus bens confiscados. Duas semanas mais tarde, estava solto. Também foi proibido de retornar a Portugal com D. João VI, mas continuou a levar uma vida tranquila e confortável no Brasil”. (Os grifos são da autora do site).
Ora, ao nos reportar ao livro indicado por Laurentino Gomes como fonte, verificamos que o autor, Tobias Monteiro, faz de Targini um relato totalmente diferente. Nem uma só frase combina com o que se descreve no livro “1808”.
Em nenhum momento Tobias Monteiro diz que Targini era catarinense, pobre, humilde e que entrou para o serviço público como guarda livros no governo da colônia. Tão pouco que “virou” escrevente do erário. E muito menos que “não embarcou com D. João VI, mas continuou a levar uma vida tranquila e confortável no Brasil”.
O relato que Tobias Monteiro faz de Targini também é totalmente deturpado, sem referência a fontes e documentos, mas não combina com o de Laurentino Gomes. De onde tiraram eles as informações que publicaram? De documentos confiáveis é que não foram.
Faça-se, pois, justiça, dando-se a conhecer a verdadeira história da vida de um dos mais competentes e honrados servidores do Brasil colonial, primeiro Tesoureiro-Mor, equivalente hoje ao cargo de Ministro da Fazenda.
Procuremos desfazer, com base em pesquisa de documentos, e não por cópia de autores anteriores, as calunias e difamações usadas como armas para derrubar Francisco Bento Maria Targini de seu cargo e afastá-lo de D. João VI, a quem dava seu poderoso apoio para sustentar o poder real do monarca.
Sendo jornalista e escrevendo sobre História, deveria ter Laurentino Gomes seguido os preceitos do Código de Conduta do Jornalista que exara o dever que tem este profissional de empreender uma incansável busca pela verdade dos fatos.
Do blog do jornalista Ricardo Setti, da Revista Veja, retiramos do artigo do diretor de Redação de VEJA Eurípedes Alcântara, sobre Ética Jornalística o seguinte dever:
“As inúmeras informações pitorescas ou de caráter pessoal, comportamental ou sexual de autoridades e governantes que nos chegam na forma de fotos, vídeos e gravações nunca são usadas por serem ofensivas e nada ajudarem na compreensão dos fatos públicos.”
Laurentino fez ao contrário do que impõe os preceitos do jornalismo e da narração histórica, espalhando sem comprovação fatos que difamam o bom nome de D. João VI e seu Tesoureiro Mor, que muito trabalharam para tirar o Brasil do atraso em que vivia.
Para casos como este, vale aqui lembrar a reflexão do Professor de Letras da Universidade de São Paulo, Adelto Gonçalves, em seu precioso artigo sobre Bocage, no periódico Agulha – Revista da Cultura, março, abril de 2006, “Verdades que são mentiras, mentiras que são verdades”:
“Há verdades que não pegam. Ou porque contrariam interesses ou porque vão contra a história oficial. Ou ainda porque insistem em tirar as pessoas da letargia e do comodismo, sugerindo-lhes que deixem de aceitar como verdadeiro aquilo que até ontem lhes parecia definitivo. Na história comum de Portugal e Brasil, há várias verdades que, até hoje, não são aceitas. Como é trabalhoso confirmá-las nos papéis velhos dos arquivos e bibliotecas, muitos estudiosos preferem continuar a repetir as patacoadas que leram em livros impressos do século XIX, eximindo-se da responsabilidade numa nota de rodapé. É mais fácil.”