Targini na mira de Hipólito da Costa

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Repito aqui o trecho do Professor Adelto Gonçalves, já publicado anteriormente na página que trata sobre a Difamação e Erros na biografia de Francisco Bento Maria Targini.

Menção a seu artigo vem a calhar neste site, elaborado para defesa do personagem histórico Francisco Bento Targini. As palavras do Professor e Jornalista Adelto Gonçalves, em seu artigo sobre Bocage, “Verdades que são mentiras, mentiras que são verdades” publicado no periódico Agulha – Revista da Cultura, março/abril 2006, do qual inserimos aqui o trecho inicial cabe também para criticar dezenas de publicações ditas históricas.

Ensina o Professor da Universidades de São Paulo Adelto Gonçalves:

Há verdades que não pegam. Ou porque contrariam interesses ou porque vão contra a história oficial. Ou ainda porque insistem em tirar as pessoas da letargia e do comodismo, sugerindo-lhes que deixem de aceitar como verdadeiro aquilo que até ontem lhes parecia definitivo. Na história comum de Portugal e Brasil, há várias verdades que, até hoje, não são aceitas. Como é trabalhoso confirmá-las nos papéis velhos dos arquivos e bibliotecas, muitos estudiosos preferem continuar a repetir as patacoadas que leram em livros impressos do século XIX, eximindo-se da responsabilidade numa nota de rodapé. É mais fácil.”

FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI NA MIRA DE HIPÓLITO JOSÉ DA COSTA PEREIRA FURTADO DE MENDONÇA

HIpólito_José_da_CostaHipólito da Costa segurando exemplar do “Correio Braziliense”. Autor desconhecido.

Francisco Bento Maria Targini e Hipólito da Costa Pereira Furtado de Mendonça são personagens que participaram ativamente da História do Brasil Colônia e do Brasil Império.

Targini, Conselheiro e Tesoureiro Mor de D. João VI, defendia o poder absoluto do Rei, pois tinha como crença a doutrina política e religiosa, vigente até então, de que o monarca reinava por vontade de Deus.

Já Hipólito, após viagem aos Estados Unidos, tornou-se seguidor dos princípios liberais, absorvidos naquele país. Esses princípios solidificaram-se, quando passou a viver na Inglaterra, onde a autoridade do Rei se colocava na dependência e sob o escrutínio do Parlamento, na chamada democracia representativa.

Hipólito da Costa nasceu na Colônia do Sacramento, em 13 de agosto de 1774, e faleceu em Londres, em 11 de setembro de 1823. Viveu muito pouco no Brasil, pois, com apenas 15 anos, foi mandado pelos pais para Portugal, onde se formou em Coimbra e não mais voltou.

Nomeado, em 1801, para a Imprensa Real, Hipólito fez uma viagem oficial à Inglaterra e França. Quando retornou, foi preso, acusado de disseminar a maçonaria. Passou três anos nos cárceres da Inquisição. Fugiu para Londres em 1805, onde reencontrou com o velho amigo que conhecera em Portugal, o duque de Sussex, filho do rei George III, da Inglaterra, e também Grão Mestre da maçonaria.

A maçonaria e o Duque de Sussex protegiam Hipólito da Costa, que chegou a obter alguns direitos de cidadania inglesa e, por isso, pode permanecer na Inglaterra, apesar das continuadas pressões diplomáticas de Lisboa, para que de lá fosse expulso.

Com o intuito de propagar a ideias liberais e derrubar a monarquia absolutista, Hipólito fundou o “Correio Braziliense”, na Inglaterra, que circulou de 1808 até 1822, data em que o Brasil se tornou independente e foi assinada a Constituição Liberal. Estes acontecimentos, principais objetivos de sua atividade jornalística, não justificavam mais seu combate e o motivaram a fechar a “O Correio Braziliense”.

Hipólito sabia a força que tem as palavras, quando impressas pelos jornais, sendo a melhor fonte para propagação de ideias políticas e formação de opiniões.

Sem dúvida, conhecia bem a máxima latina, “verba volant, scripta manent” – cujo sentido é “palavras ditas voam, as escritas permanecem”.

Francisco Bento Maria Targini - Visconde de São Lourenço
JOSÉ MARIA TARGINI Sobrinho e herdeiro Francisco Bento Maria Targini – Visconde de São Lourenço

 

JOSÉ MARIA TARGINI

Foto de Carneiro&Gaspar, Rio de Janeiro. Original do acervo particular de Maria Sylvia Nogueira de Toledo.

Um dos principais alvos de Hipólito da Costa foi o Tesoureiro do Real Erário, Francisco Bento Maria Targini. Homem forte junto à Corte, em quem D. João depositava grande confiança e amizade, era o mais visado. Começaram a chover a seu respeito histórias inverossímeis, difamatórias, que as pessoas não procuravam saber se eram verdadeiras, mas logo as aceitavam como tal e as divulgavam.

Com suas críticas mordazes, difamatórias, irônicas, Hipólito ia pouco a pouco solapando a imagem das principais figuras que davam suporte ao governo de D. João VI, moldando a opinião do povo, que se tornando enfurecido, acabou, em 1821, por exigir, com ameaças, a deposição de alguns deles. E, até mesmo, no caso de Targini, a planejar a invasão de sua casa para atacá-lo. Foi salvo por D. João VI, que mandou prendê-lo na Fortaleza de Santa Cruz, com o fito de protegê-lo e acalmar o povo, enquanto se analisavam as contas por ele apresentadas, até embarcá-lo, com segurança, no navio que levaria a família real de volta a Portugal. Nesta viagem Targini

Um dos métodos empregados por seus detratores, que não se sabe a autoria, mas depreende-se que vinha de pessoa culta e não de qualquer um do povo, foi o da divulgação, no molde dos famosos libelistas, de quadrinhas difamatórias, de fácil memorização, como os modernos “jingles”, que facilmente se espalhavam e arregimentavam o povo contra sua pessoa.

Tão bem-feitas eram as quadrinhas, que até hoje são repetidas e servem como justificativa da injusta condenação popular de Targini, embora oficialmente suas contas sempre tenham sido aprovadas, mesmo por D. Pedro I, que na sua adolescência tinha sérias discussões com o Tesoureiro Mor, que lhe fechava a bolsa para suas aventuras. E ainda se acredita e se repete, na falsa afirmação, de que eram criações espontâneas do povo.

  • Leia-se e analise-se:
  • Furta Azevedo no Paço,
  • Targini rouba no Erário;
  • E o povo aflito carrega
  • Pesada cruz ao Calvário.

Ou

  • Quem furta pouco é ladrão
  • Quem furta muito é barão
  • Quem mais furta e esconde
  • Passa de barão a visconde

O grande amigo de Hipólito na Inglaterra era o Duque de Sussex, filho do Rei Jorge III e Grão Mestre da Maçonaria Inglesa. No primeiro discurso que pronunciou em defesa dos direitos da regência do príncipe de Gales, Sussex lembrou que assistira o desenrolar da Revolução francesa, o que o possibilitava concluir que o fato que antecedera a queda de todos os governos fora “pôr a magistratura da realeza em suspenso e falta de reputação, ou inflamar, injuriar e prejudicar o espírito do povo contra o seu soberano e seus herdeiros”.

Hipólito da Costa, amigo inseparável de Sussex, sem dúvida, participava das mesmas conclusões e começou a empregar este mesmo método, sem escrúpulos, mas vitorioso, em seus editoriais, na Gazeta Braziliense. Seu jornal, publicação criada, justamente com o intuito de disseminar as ideias liberais, seguiu este caminho, de “injuriar e prejudicar” não a Monarquia, mas os homens que participavam do governo de D. João VI, adeptos do poder absoluto do Rei. Inflamar o povo, para derrubar, pela calúnia, os ministros e conselheiros do Rei, aqueles que lhe davam apoio e força para não aceitar a Constituição Liberal, proposta pelas Cortes de Lisboa. Aconselhavam o Rei a reagir e, em chegando a Portugal, desfazer as Cortes, restaurar o seu poder absoluto e defender seu direito divino de governar. Defendiam o direito do Monarca de vetar, ou não, as propostas das Cortes, que lhe tinham de ser submissas.

Quanto a Targini, o ataque foi sem trégua e desmedido. Aproveitou-se o jornalista do hábito que o povo tem de aceitar como verdade qualquer boato que ouve, e disseminá-lo.

Escreveu Hipólito:

Ei nos aqui atirados outra vez para o Targini, ou Barão Targini, ou o que na verdade é; em uma palavra o tal escrevente do Erário, de quem nunca ouvimos uma só boa qualidade que o recomendasse; e que não faz mais do que inchar-se como pomba rola, ou pavão, com as honras, que ninguém sabe como lhe caíram em casa (Vol. XV, p. 547).

Vê-se ai a clara intenção do jornalista em diminuir a figura do Tesoureiro Mor. Hipólito não morava no Brasil, desde seus 15 anos, e pode-se dizer, com certeza, que morando na Inglaterra, não poderia conhecer Targini e sua brilhante trajetória, nem as causas das honrarias que recebeu. Tudo o que escrevia sobre ele eram invencionices, ou notícias manipuladas e plantadas, para destruir-lhe a reputação, que lhe eram trazidas por qualquer um que aportasse em Portugal ou na Inglaterra, vindos do Brasil. Logicamente, como ele mesmo nos diz, nunca poderia ter ouvido, a respeito do, na época, Barão de São Lourenço, “uma só boa qualidade que o recomendasse”, a quem ele chama, depreciativamente, de ” ou Barão Targini, ou o que na verdade é”. Tão pouco, por morar do outro lado do Atlântico, não poderia ter visto e nem afirmar que Targini “não faz mais do que inchar-se como pomba rola, ou pavão, com as honras, que ninguém sabe como lhe caíram em casa”.

Tudo boa técnica na escolha de palavras, com o objetivo de solapar a reputação de Targini e despertar a ira do povo por esta figura, das mais importantes da Corte.

Hyppólito publica nas páginas do Correio Brasiliense (Vol. XV, p. 544), que:

“ O barão não é capaz nem de administrar a sua própria casa, quanto mais o Erário de um grande reino”

Ora, uma das fúteis críticas que se fazia a Targini era justamente dele possuir magnífico palacete, muito bem decorado, onde recebia às quintas feiras, a sociedade carioca.

Mais adiante diz:

E isso, para ele, tem um motivo claro: Para ser escrevente ou contador, em qualquer repartição do Erário; basta, com um talento medíocre, o conhecimento básico de escrituração dos livros de contas, e os serviços, feitos com tais empregos, ficam assaz remunerados com a promoção dos indivíduos de lugares menos rendosos para outros de maiores emolumentos, uma aposentadoria na velhice, algum distintivo honorífico, penduricalho d’hábito ou coisa semelhante, que lisonjeia a imaginação de grandeza, etc. (Vol. XV, p. 544 ).

Não, Sr. Hipólito, para ser escrevente ou contador, nas repartições do Erário, não bastava tão pouco.

Na Biografia de Francisco Bento Maria Targini consta, perfeitamente documentado:

Que ele, já aos 19 anos, apresentado por seu tio Christovão Targini, assessorava o Marquês de Pombal.

Que em 1776, com apenas 20 anos, no reinado de D. Maria I, foi nomeado funcionário do Real Erário, como Escrivão da Fazenda Real,

Que era sobrinho de Cristóvão Targini, professor e escritor, de família de prestigiados contadores italianos, convidados pelo Marquês de Pombal para lecionar contabilidade em Portugal.

Que, em 1783, aos 27 anos, foi nomeado como Escrivão da Provedoria da Capitania do Ceará, mediante Patente Régia de Sua Majestade D. Maria I, com todos privilégios que o cargo trazia e com ordenado igual ao soldo do capitão-mor e governador. (Notas para a História do Ceará Guilherme Studart).

Publica ainda Hipólito em seu Correio Brasiliense:

´Custa a ter paciência para ver Targini premiado com o título de barão e depois de visconde, quando a sua administração nas finanças é tal que, em outro qualquer país, o teriam corrido a pedra`. (XXIII, 449).

A desmentir as opiniões difamatórias de Hipólito, em seu livro “O Movimento da Independência”, o historiador Manuel de Oliveira Lima escreveu sobre o Tesoureiro Mor:

“Targini tinha numerosos inimigos e começou a tê-los pela sua severidade burocrática quando esteve no Ceará como escrivão da provedoria da capitania, assim encetando em 1783 sua carreira de funcionário da fazenda, e depois em 1799 como escrivão-deputado da junta de fazenda autônoma. Malquistou-se então com os governadores por questões do fisco e com os ouvidores por denunciar seus furtos na arrecadação dos bens de defuntos e ausentes. Como é que o Cérbero se transformou depois em dilapidador? Não haveria grande dose de calúnia nessa difamação? Hipólito dele escreveu que nem português sabia e, entretanto, Targini traduziu, para o português corretamente, em versos, o Paraíso Perdido de Milton, trabalho esse considerado pelos críticos modernos como a primeira tradução e a melhor, se fez, do poeta inglês, e traduziu também o Ensaio sobre o homem de Pope, em versos soltos”.

O epíteto, que na Corte davam a Targini, por si só, demonstra o que se pensava de sua erudição, que não era negada por ninguém que o conhecia:

“Totum continens”

s. m. || palavras latinas que significam “que contém tudo” e com as quais se designa um indivíduo que tem ou pretende ter muitas aptidões; um factótum; faz-tudo.

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