Targini no Ceará

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TARGINI NO CEARÁ

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MAPA DO CEARÁ – 1800 – GREGÓRIO AMARAL

Desde há muito tempo, ouvia-se na Corte notícias preocupantes, que chegavam sobre a má administração do antigo território da Capitania do Siará Grande, agora pertencente a Pernambuco.

Com a nomeação, em 1782, do fidalgo João Batista de Azevedo Coutinho de Montaury, como governador, com o título de Capitâo-Mór, o qual se submetia ao Capitão-General de Pernambuco, esperou-se que, pela sua severidade, a disciplina se imporia, mas a situação, em menos de um ano, somente piorou. Como relatam diversos documentos apresentados pelo historiador Guilherme Studart, em seu livro “Notas para a História do Ceará”, sabe-se que Montaury era uma pessoa irritada, mesquinha, invejosa, provocador e cheia de ódios, que não admitia ser contrariado. Conta Studart: No desejo de realizar os planos, que o ódio sugeria-lhe, lembrou-se Montaury de pintar aos políticos de Lisboa a Capitania nadando em sangue, abrasando-se em imenso incêndio de revolta e indisciplina, caso o ouvidor não fosse demitido”.

Estando as coisas neste estado, Francisco Bento Maria Targini, pela fama que tinha de bom administrador, foi nomeado, em 1783, como escrivão da Provedoria da Capitania, mediante Patente Régia de Sua Majestade D. Maria I, com todos privilégios que o cargo trazia e com ordenado igual ao soldo do capitão-mor e governador. (Notas para a História do Ceará – Guilherme Studart).

Mapa Fortaleza antigo
Mapa Fortaleza antigo

Ao desembarcar, Targini deslumbrou-se com o Ceará.

Em seus relatórios à Corte, sua alma de poeta descreveu a terra como o lugar de grande fecundidade, de ar saudável, lindo e estrelado céu, vastas campinas, serras férteis e belos rios.

Seu porte, sua elegância e erudição, a todos impressionaram e granjearam-lhe muitas amizades, bastando isto para tornar-se figura insuportável para o Governador Montaury mas, principalmente, por receber um soldo igual ao dele, fidalgo com grande prestígio na Corte.

O zelo de Targini, para com o fisco, levou o historiador Guilherme Studart a compará-lo ao “lendário cão da porta do Inferno, Cérbero, que tivesse agora sido posto ás portas do Tesouro Público”.

O novo Escrivão logo demonstrou sua capacidade de trabalho, e começou a granjear inimigos, como, aliás, aconteceu pelo resto de sua vida, “pelo zelo com que defendia os interesses do Erário, exigindo com rigor o pagamento dos impostos e o cumprimento das obrigações, á chusma ávida dos contractadores.”, como nos conta Manuel Emílio Gomes de Carvalho em “Os deputados brasileiros nas Cortes Gerais de 1821”.

Também Oliveira Lima, em seu livro “O Movimento da Independência”, informa que, pelo rigor com que cumpria suas obrigações, Targini acabou “malquistando-se com os governadores e ouvidores por seus excessos no combate a práticas administrativas desonestas. Malquistou-se com os governadores, por questões do fisco e com os ouvidores, por denunciar seus furtos na arrecadação dos bens de defuntos e ausentes.

Baseado em documentos e testemunhas, Guilherme Studart conclui, sobre a personalidade de Montaury:

“Não censuro, portanto, Montaury porque teve de arcar com o clero, os ouvidores, os oficiais de Fazenda, os simples particulares, mas porque arcou por motivos inconfessáveis, foi injusto muitas vezes, e quase sempre o provocador.

Continua Studart:

Targine, pois, não podia deixar de figurar também nas lutas, que Montaury sustentou na Capitania.

“Targini”, diz uma testemunha ocular, “tem sofrido da parte do capitão-mor maiores vexações e injúrias até o ponto de lhe tirar toda a comunicação e sociedade, já prendendo e perseguindo aqueles que o freqüentavam, ainda mesmo em razão do seu ofício, já difamando, já cavando-lhe ruínas com o General de Pernambuco, já em contas por ele dadas imediatamente a S. Majestade, pintando-o como revoltoso, intrigante, sedicioso, tudo meras calúnias e tudo a fim de o perder de todo ou de o pôr em desesperação tal que desamparando o seu lugar, que honradamente serve, e retirando-se da capitania, como muitos outros, tenha menos uma testemunha autêntica das suas manobras e tiranias”.


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II – Perseguição de João Batista De Azevedo Coutinho de Montary a Targini

O relato que se segue foi tirado do livro “Notas para a História do Ceará”, do erudito historiador Guilherme Studart. Para cada fato relatado, o autor baseou-se em farta documentação, colecionada durante sua vida.

“Tendo Montaury conseguido, primeiramente, realizar seu intento, de afastar o Ouvidor da Comarca, André Ferreira de Almeida Guimarães, dedicou-se a fazer o mesmo a Targini.

Outro ouvidor foi nomeado, por provisão de 11 de outubro de 1785 e empossado a 25 de janeiro do seguinte ano. Tratava-se de Manuel Magalhães Pinto Avelar de Barbedo.

Como o próprio Avelar relata, e que revela a má índole do Governador do Ceará, Montaury tratava-o “em os primeiros tempos com mil cortejos, obséquios e donativos, tudo determinadamente a fim de me comprar, porém eu, que de longe avistava o alvo a que tudo se dirigia, como bom entendedor, sempre evitava todas.

Quando Montaury percebeu que não dobraria o novo Ouvidor, cujas funções do cargo queria dominar, iniciou, também contra ele, sua campanha difamatória.

A tal ponto foram as intrigas de Montaury, conta Studart, que acabou “o capitão-general, partidário em começo do governador, por esquivar-se ultimamente de responder-lhe as cartas, pelo que era vítima também dos seus remoques e indiretas”.

No entanto, tristes acontecimentos, documentados e relatados, com maestria, pelo historiador Guilherme Studart, no livro “Notas para a História do Ceará”, acabaram por redundar, por algum tempo, no afastamento de Targini, do cargo que exercia.

Relata Studart:

“Oito meses depois de haver assumido o cargo, Manuel Magalhães Pinto Avelar de Barbedo dispôs-se a sair em Correição aonde chamavam-no as arrecadações da Fazenda Real, que pelos continuados embaraços opostos a seu antecessor, se haviam interrompido.

Já a esse tempo o governador João Baptista de Azeredo Coutinho de Montaury era seu inimigo declarado e buscava alcançar, pelo terror e pela ameaça, o que não haviam obtido a corrupção e as boas maneiras.

Estando o novo Ouvidor em viagem pelas vilas da Comarca, chegou a Sobral, onde prendeu o porta-bandeira Antônio José Correia de Sá, um fugitivo da justiça do Piaui, onde era acusado de assassinato. Acontece que este porta-bandeira era protegido de Montaury, e isto aumentou o ódio que sentia de Manuel Magalhães Pinto Avelar de Barbedo, por entender que este estava interferindo em suas decisões.

Por força da proteção de Montaury, o fugitivo havia sido nomeado cobrador das dívidas pertencentes ao cidadão Antônio de Castro, que haviam sido seqüestradas pela Fazenda Real.

Conta Studart, que o porta–bandeira, “confiado na proteção de Montaury, buscava por todos os modos burlar os despachos e as providências dos dois ouvidores empenhados no processo.

Constituiu-se Correia de Sá o terror da população sobralense, em cujo seio foi encontrá-lo Avelar de Barbedo, a ponto da respectiva Câmara e os oficiais de Ordenança recorrerem ao governador para livrá-los da sua presença.

Longe de satisfazer às reclamações, Montaury tomou o partido do acusado e manifestou-se abertamente hostil às vítimas, das quais umas como o coronel da cavalaria auxiliar da serra dos Cocos Manuel Martins Chaves, o juiz ordinário do Campo Grande, Bernardino Gomes Franco, o capitão-mor de Ordenanças de Sobral, José de Xerez Furna Uchoa, foram forçados a expatriar-se, e outros foram atiradas às prisões, como o Tenente José Ferreiro, que carregado de ferros seguiu de Sobral para Fortaleza, por ter tido a inconsiderada ousadia de mandar citar para uma ação civil um amigo e sócio do dito porta-bandeira.

Nessa situação de cousas, resolveu-se a Câmara a representar ao ouvidor Avelar de Barbedo, pedindo providências e, por ocasião da correição, saiu o protegido do governador Montaury culpado em duas devassas.

Em audiência geral de provimentos, requereram ao novo ouvidor o Senado e os Repúblicos Sobralenses, que na falta de providências estavam resolvidos a desamparar a vila. “Respondi-lhes”, diz o ouvidor numas informações que prestou sobre o assunto, “nos termos os mais comedidos, que eu, ainda que pudesse, me não deliberava a proceder contra aquele homem, pelas péssimas conseqüências que do meu procedimento poderiam não resultar, porém que eu lhes dava a minha palavra do representar a S. Majestade e ao Capitão-General de Pernambuco sua miserável situação, a fim de lhes vir de alguma destas partes o remédio, que eu me não atrevia a aplicar.

Resultou daqui, o choverem raios de cólera do capitão-mor Montaury, sobre os infelizes, que fizeram tal requerimento, motivo por que uns fugiram e outros, para lhe aplacar a atrabílis, se desdisseram, que foram obrigados passar ao dito porta-bandeira por mando do mesmo capitão-mor, sendo um dos fugidos por esta causa o capitão-mor das Ordenanças desta vila (Sobral), que ainda se acha em Pernambuco.

Escreve Avelar de Barbedo:

“Eu mesmo me deixei apoderar do terror e medo, ouvindo assoberbas e tremendas ameaças com que o dito porta-bandeira me jurava na presença de toda a gente que não havia de voltar ao Reino, pois que ele sabia modo de sumir os ouvidores donde não aparecessem mais que no outro mundo.

Tudo receando da audácia e atrevimento deste homem, que a experiência tinha mostrado que familiar e indiferente lhe era a morte de outro homem, tomei as mais exatas cautelas, e abstendo-me de sentenciar e de obrar cousa alguma contra ele mandei representar a sua conduta e procedimentos ao General de Pernambuco como o mais próximo refúgio, remetendo-lhe as culpas daquele facínora juntamente com a representação, que a Câmara me tinha feito sobre ele, e também a do requerimento dos Repúblicos feito em Audiência Geral”.

Pouco tempo depois, o ouvidor teve ordem do Capitão-General para prender o porta-bandeira e remetê-lo para Pernambuco, o que executou sem demora. Em Pernambuco submeteram-no a um Conselho de Guerra.

Avelar lutava e ousava fazer valer os seus direitos e importância do cargo que ocupava, principalmente, como informa Guilherme Studart, por encontrarem-se a seu lado todos aqueles a quem revoltavam e exasperavam os desmandos e as violências do governador.

Entre eles, informa Studat, um merece especial menção: É o Escrivão da Fazenda Real de então, Francisco Bento Maria Targini, o futuro Visconde de São Lourenço Aqui, encarnação do fisco, Cérbero posto à porta do tesouro público, teve de arcar com Montaury, como arcaram o clero, os ouvidores, os oficiais, e os simples particulares.

Montaury, orgulhoso de sua fidalguia, cioso do cargo que ocupava e cujas prerrogativas buscava aumentar desmesuradamente, pouco curando de invadir as atribuições das outras autoridades da Capitania, quer as emanadas da escolha popular, essas principalmente, quer as de eleição real, despertava por toda parte inimizades.

Targini, pois, não podia deixar de posicionar-se contrário às lutas que Montaury sustentou na Capitania.

Os ressentimentos e a cólera uniram em estreita aliança o ouvidor e o escrivão.

Caráter de boa têmpera, amando a luta e contando com um tal aliado, Targini aproveitou o apoio de Avelar e achou que chegara a ocasião de enfrentar Montaury, pois já não era mais possível suportar o ódio de que era alvo.

Qual verdadeiro Javert, personagem de “Os Miseráveis”, Montaury se desesperou com o enfrentamento de Targini e, não desistindo de sua perseguição, começou a envenenar a cabeça de seu superior, o Capitão-General de Pernambuco.

Finalmente, uma carta de Montaury, dirigida ao Capitão General José Cesar de Meneses, continha acusações de tal ordem que o deixaram fortemente impressionado e não se lhe deu outra alternativa, a não ser atender os desejos do capitão-mor de Ceará e mandou que se prendesse Targini.

Casas dos governadores FORTALEZA

Conta Studart:

“Essa ordem de César de Meneses, escrita evidentemente sob a impressão das informações de Montaury, é datada de 29 de maio de 1784”:

“Sendo-me presente as insultantes maneiras com que se tem portado nessa Capitania Francisco Bento Maria Targini pelas quais se tem feito aborrecível e malquisto não só a todos esses povos mas até ao seu próprio Governador da mesma Capitania, a quem devo quando a ela chegou obrigações de Protetor e benfeitor, vindo a esquecer tanto destas que se animou com temeridade inaudita a ultrajar por meio de palavras inflamatórias o respeito e autoridade da pessoa do mesmo Governador e a profanar por meio de obras infames o decoro da sua casa e família; para dar uma provisional demonstração de castigo, posto que diminuto, ao que merece tão abominável conduta, enquanto não procedo a outro mais severo, esperando a emenda: Ordeno a vm.ce chame a sua presença o dito Francisco Bento Maria Targini e lhe intime que eu lhe estranho muito as suas repreensíveis faltas de reconhecimento, sujeição e respeito por todos os títulos a vm.ce devido nessa Capitania, e muito mais aqueles escandalosos e execrandos atentados em que o fez precipitar o seu vergonhoso espírito de ingratidão, soberba e libertinagem, que fique entendido que nessa Capitania é Vm.ce seu Governador e superior, a quem deve toda a veneração e obediência, que Vm.ce tem jurisdição para lhe distribuir ordens e para o poder castigar, e que nenhum pretexto ou fundamento há compatível com a boa ordem que o isente ou possa isentar da notória obrigação que tem de reconhecer, obsequiar, reverenciar e obedecer a Vm.ce como seu Superior e Governador nessa Capitania. Feita esta intimação Vm. ce o mandará prender e conservar preso até achar que estão correspondentemente castigadas as suas extravagantes culpas.“

Deus guarde a Vm.ce.

Recife vinte nove de maio de 1784.

José César de Meneses.

Sr. João Batista de Azevedo Coutinho de Montaury, Tenente-Coronel e Capitão-Mor Governador da Capitania do Ceará.

E não se continha mais em dita ordem, que bem e fielmente aqui registrei da própria original, aos 26 de novembro de 1785. José de Faria.”

Felizmente, após alguns meses, a melhor análise dos fatos e vários testemunhos a favor de Targini, mostraram o mau caráter de Montaury e um mandado do próprio Capitão-General de Pernambuco, que autorizara a prisão, veio libertá-lo.

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FORTE-NOSSA-SENHORA-DA-ASSUNÇÃO-FORTALEZA-CE

Montaury não se deu por vencido.

Desesperado pela inveja, esperou outra ocasião que lhe desse oportunidade de destruir Targini e, quem sabe, Avelar.

Soube Montaury que, partindo Avelar de Barbedo para a Correição da Capitania e chegando ao Icó, escreveu ao escrivão (Targini), que então achava-se servindo de provedor interino, que fosse encontrá-lo a fim de transportar para os cofres o dinheiro arrecadado.

Ouçamos, porém, a história contada pelo próprio Avelar em carta ao ministro: Da vila do Icó onde me achava de Correição, escrevi ao escrivão da Fazenda Real (Targini) para que sendo-lhe possível me viesse esperar a esta vila, dois dias de viagem da comarca, a fim de fazer conduzir para os cofres da Provedoria os avultadíssimos dinheiros pertencentes à Fazenda Real, que tenho arrecadado com todo zelo nesta Correição, que tenho feito pelo sertão, a qual arrecadação tem sido muito maior e mais numerosa que nem uma até agora pela falta que havia há seis e sete anos de se fazerem as ditas Correições, em que e costume antigo de se cobrarem os pagamentos e executarem os devedores pelas dívidas preferidas.

A condução destes dinheiros e muito principalmente de perto de 10 mil cruzados em prata, que também trazia, fazendo-se-me onerosa e incômoda pelo restante da Correição, que ainda tinha que fazer, por isso me resolvi a fazer aquele aviso ao Provedor interino para que os viesse conduzir para os cofres, por lhe ficar esta vila muito próxima da sua residência. Vinha com efeito ao meu chamamento o dito Provedor interino (Targini): porém o capitão-mor (Montaury), que por uma antiga aversão e jurado ódio, há muito tempo buscava um pretexto qualquer, se aproveitou da dita viagem para o perder inteiramente.

Mandou logo várias tropas de soldados da Infanteria paga fossem em seguimento do dito Provedor Interino, para que o prendessem, e todos os fâmulos, e escravos e cargas da sua condução e os trouxessem para as prisões da Fortaleza. Porém aquele, tendo tido aviso anterior do que se passava a seu respeito, se escondeu, e se embrenhou no interior de uns matos virgens, onde esteve vivendo quinze dias na maior necessidade, esperando que as tropas, que o seguiam, passassem avante.

Neste tempo, vinha eu de jornada da Vila do Icó para esta do Aracati. No meio dela fui abordado por uma daquelas tropas, em que iam seis soldados, e um sargento, os quais apresentando-me uma Portaria do capitão-mor pretendiam que se lhe entregasse o Provedor interino e me correram toda a comitiva, e arredores para ver se o achavam, até pelas inculcas, que tiraram, desenganando-se de que não tinha vindo para aquelas partes, mas antes que lhe ficava já atrás, tornaram outra vez a voltar, pedindo a resposta da intimação que me tinham feito da Portaria do capitão-mor. Li a Portaria e vendo que o pretexto tomado para a prisão do Provedor interino (Targini) não era outro que dizer livremente o capitão-mor que ele tinha fugido, e desertado da Provedoria, respondi-lhes que podiam certificar ao capitão-mor que o Provedor interino não tinha fugido, mas antes, que vinha chamado por mim por negócios do serviço Real, e que se o dito Provedor tinha alguma outra culpa que fazendo-se-me saber, eu procederia na conformidade das leis.

Cheguei a esta Vila do Aracati, e em uma noite me veio buscar o Provedor interino (Targini), que até ali tinha estado escondido. Demorou-se dois dias em minha casa enquanto tomei conta dos Balanços do Cofre da Provedoria, passados os quais tendo certeza que vinha em caminho uma numerosa tropa de soldados com intenção de me cercarem as casas, e de me prenderem dentro delas, avisando disso o mesmo Provedor, nesse mesmo dia partiu para Pernambuco a buscar recurso em o governador e Capitão-General da Capitania, ou em a Junta da Administração e Arrecadação da Real Fazenda.

No dia seguinte ao da partida do Provedor interino, chegou a esta vila a tropa, que se esperava, composta de 16 soldados e comandada pelo Alferes José Henrique Pereira.

Desenganados de que aqui já se não achava a sua presa, puseram a vila em assédio aquartelando-se metade no princípio dela e metade no fim, fazendo todas as noites rondas, e a fim (diziam eles) de ver se podiam apanhar algum Oficial de Justiça, visto ter-lhes escapado o outro, pois só assim poderiam contentar de alguma forma a raiva do capitão-mor e publicavam mais, que traziam ordem para atirar, matar, e prender quem quer fosse que se opusesse às diligências.

Eu porém, que conheci prudentemente a intenção e desejos do capitão-mor em fazer nascer algum distúrbio, dei ordem para que nenhum dos meus oficiais saísse de casa para diligência alguma, principalmente de noite. Esta resolução baldou todas os projetos do capitão-mor, o qual depois de vinte dias, que teve em assédio esta vila, mandou retirar a tropa, que com efeito se foi”.

Sabendo que a vítima conseguira escapar-lhe, e sedento de vingança, ordenou o governador por carta de 7 de maio ao Juiz Ordinário da Vila da Fortaleza, Inácio Pereira de Melo, que instaurasse processo contra Targini, por crime de fuga e injúrias à primeira autoridade da Capitania; por seu turno o Ouvidor expediu um mandado ao mesmo juiz evocando a si toda e qualquer ação, crime ou civil, que se estivesse instaurando contra seu subalterno.

Diante do mandado evocatório, o Juiz Pereira de Melo, apesar de servir e nimiamente medroso, suspendeu o processo iniciado, e disso deu conta ao governador em carta, que é um documento pelo qual se poderá aferir a energia moral dos homens, que estavam incumbidos de administrar a Justiça na Capitania.

Poder-se-á avaliar bem dela pela seguinte transcrição:

Ilmº Sr. ainda que reconheço a pronta e inalterável obediência com que devo cumprir as respeitáveis ordens de V. S. e que sempre que V. S. é servido determinarmos não me tenho regulado por outro sistema, senão por este mesmo de obedecer a V. S. como devo e sou obrigado: eu contudo me considero sem jurisdição para continuar as funções do sumário crime, que V. S. me determinou pela sua carta de ordem de 7 do corrente mandasse formar pelo escrivão diante mim contra Francisco Bento Maria Targini, escrivão da Provedoria da Real Fazenda desta Capitania, pelas audaciosas calúnias com que este se tem proposto contra a sempre autorizada qualidade de V. S. atacando mais o seu independente pudor, e a sua plena autoridade nesta mesma capitania como chefe superior dela; fazendo mais V. S. descrever todos os fatos injuriosos, e demarcados, que servem, de objeto ao dito sumário, na portaria datada de 4 deste mesmo mês que para este fim me dirigiu, com a contemplada carta de ordem.

Não é outro Ilmº Sr. o preceito que limita a minha jurisdição para cumprir os atos subseqüentes ao mencionado sumário, que se acha formado, desde o mesmo dia 7 do corrente, em que me foi entregue a comemorada deliberação de V. S. senão o de me ter sido intimado neste mesmo dia pelo escrivão do meu cargo um mandado executivo, e substatório do Dr. Ouvidor-geral e corregedor desta comarca (se bem que passado pelo expediente da Provedoria da Real Fazenda e ex oficio da mesma Provedoria) no qual se me cominam as penas de suspensão, e de se proceder contra mim criminalmente, se depois da dita notificação exercitar ato algum de jurisdição, que seja relativo ao dito sumário e se logo não fizer enviar todos os processos que se tenham perpetrado e tratado neste meu Juízo, cível ou criminalmente contra o sobredito Targini.

Para que V. S. veja de mais perto que não por desobediente, sim porque também devo cumprir os mandados e deliberações do Diretor Ouvidor-Geral e Corregedor desta comarca, o qual também é meu superior, e com muita autoridade, eu tomo a resolução de apresentar com esta a V. S. o sobredito mandado e espero que a ilimitada piedade e grande prudência de V. S. me desvie os trabalhos, que me poderão sobrevir, contemplando para isso V. S. a indigente subsistência da minha situação nesta Capitania.

Vila da Fortaleza 22 de maio de 1787.

”Retorquiu-lhe o governador em carta de 23 do mesmo mês, citando quantas leis e regulamentos aprouve-lhe trazer a lume para corroborar o acerto e a justiça das ordens que lhe dera, e terminando, e isso de envolta com as maiores ameaças, por exigir que continuasse a preparar o processo contra Targini por crimes de sedição e revolta, atentado, atrocíssimas injúrias, falsos testemunhos, calúnias inoportunas e até aliciamento de um escravo para perpetrar assassinatos.

Essa carta, em que se revela o dedo do secretário José de Faria, é peça curiosa e como tal seria publicada por mim se não fosse demasiado extensa.

Repare-se, com que cores o ódio do governador descreve o caráter do futuro Visconde de S. Lourenço, do homem a quem o destino deveria mais tarde colocar a seu lado e ocupando lugar eminente junto ao trono de D. João VI.

As ameaças sempre crescentes do governador e sequazes levaram o medo até ao ânimo do próprio Avelar de Barbedo, que deixou prosseguir o sumário sem mais protestos ou oposição.

“O capitão-mor”, diz ele, “me ameaçava com armas e força e com todos os direitos pela inadvertência legítima de mandar passar o dito mandado avocatório; respondi ao Juiz Ordinário com toda a tranqüilidade e sangue-frio que podia continuar não só no auto principiado, mas em todos que lhe aprouvesse, pois eu da minha parte em nada mais me metia, e que cedia, e que tornava a ceder não só àquele respeito mas em tudo que se quisesse: e com efeito se continuou por avante e se terá provado tudo quanto o capitão-mor quiser, e ultimamente chegou aqui notícia que além dos crimes apontados já tenho agora inventado outro contra o mesmo Provedor interino, o qual era de premeditada propinação de veneno.”

Montaury não contentou-se em mandar prender a Targini, ordenou que o Juiz Ordinário fosse com o escrivão e alcaide às casas onde se achavam o cartório e expediente da Provedoria, e fizesse seqüestro de tudo que lá encontrasse.

Assim procedeu o juiz, apresentando-se a 6 de julho das 7 para as 8 horas da manhã, fazendo seqüestro e apreensão dos bens pertencentes ao fugitivo, e se não estendeu-se a medida a todos os livros e papéis da Provedoria foi por haver protestado o Dr. Procurador da Coroa Joaquim de Sousa da Fonseca Prata, por danos e prejuízos, que de tal ato viessem à Fazenda Real. Entre os bens confiscados foi incluída a biblioteca particular do ouvidor, que ficara confiada a Targini.

Tudo isso vê-se de um documento firmado em 23 de julho de1787 por Baltasar Freire Lopes, escriturário e escrivão interino da Provedoria.

A campanha empreendida contra a honra e o bom nome de Targini, no propósito de inutilizá-lo e perdê-lo de todo logrou apenas que ele fosse,após quase quatro anos de perseguições,em 1787, substituído no lugar que exercia, por outro oficial, Joaquim José Rodrigues Caldas.

Pequeno castigo para os grandes delitos, que lhe atribuía Montaury. Prova que ninguém acreditou nas infâmias do Governador.

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